31/12/2022

Publicado em 31.12.22 por

Leituras concluídas em 2022

2022 foi um ano de leituras intensas e de novas descobertas com autores dos quais eu ainda não tinha entrado em contato com nenhuma obra. Também foi um período de muitas reflexões e pesquisas que enriqueceram bastante meu conhecimento de mundo.

Inicialmente, tive longos três meses ao lado de "Guerra & Paz" no projeto "Tijolões" e no decorrer do ano, mais quinze títulos foram lidos. Cheguei a ler também "Macbeth" (Shakespeare) mas não quis inseri-lo nessa cota porque estou longe de terminar o volume com as quatro principais tragédias do bardo e irei lê-las em períodos intercalados com outros títulos no ano que vem.

Seria inevitável falar ainda que alterei minhas escolhas algumas vezes (acabo não resistindo e sempre troco algum livro de acordo com o interesse que tenho no momento). Cada experiência foi única e me sinto satisfeito por ter acompanhado tantas histórias formidáveis nessa jornada.

Como fiz no ano passado, citarei a lista com todos os títulos que fizeram parte da meta anual.

• Guerra & Paz (Liev Tolstói)

• Morte no Nilo (Agatha Christie)

• Cinco Minutos / A Viuvinha (José de Alencar)

• Outros Tempos, Outros Mundos (Robert Silverberg)

• A Linha de Sombra (Joseph Conrad)

• A Princesa de Clèves (Madame de La Fayette)

• Ensaio sobre a Cegueira (José Saramago)

• Auto da Compadecida (Ariano Suassuna)

• Pedro Páramo (Juan Rulfo)

• A Coleção Particular (Georges Perec)

• O Pai Goriot (Honoré Balzac)

• O elogio do ócio e outros ensaios (Robert Louis Stevenson)

• Meridiano de Sangue (Cormac McCarthy)

• Cinco Semanas num Balão (Júlio Verne)

• O Natal de Poirot (Agatha Christie)

• Memórias de um Sargento de Milícias (Manuel Antônio de Almeida)

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24/12/2022

Publicado em 24.12.22 por

No Natal, todo lobo vira cordeiro (ou não)

Natal é época de confraternização e renovo, ou pelo menos, deveria ser. Em se tratando de Agatha Christie, nem essa data tão venerada escapa de ser palco de mais um sórdido crime. Quanto a isso, nessa aventura de Poirot, conhecemos a complicada família Lee. Cada parente possui algum atrito envolvendo traumas ou desentendimentos do passado em relação ao inescrupuloso patriarca Simeon Lee, que resolve convidar todos para passar o Natal em sua velha e solitária mansão. Desses conflitos familiares gera-se então o pivô que irá desencadear num assassinato e colocar os convidados na posição de suspeitos do crime. Com a intenção de ajudar o superintendente Sugden no caso, Hercule Poirot aparece para investigar o homicídio e acaba roubando a cena (pra variar). 

O background dessa obra é simples, mas construído de forma bastante convincente. A autora trabalha bem os diversos personagens ainda que os capítulos sejam pequenos (levando em consideração que este é um livro com menos de 300 páginas). Assim como em outros livros da Agatha, os suspeitos passeiam numa gama de interações que giram em torno do crime, ora deixando pistas nas entrelinhas, ora omitindo certos detalhes que só virão à tona quando o quebra-cabeças começar a ser montado. No que se refere a isso, Poirot e suas "células cinzentas" nunca deixam passar nada desapercebido. 

Apesar do clima sério da história, essa foi uma leitura bem fácil e divertida de se fazer. Não foi dessa vez que descobri o assassino, mas quem sabe, da próxima. A ilustre Rainha do Crime tem sempre uma carta escondida na manga pra nos surpreender.

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17/12/2022

Publicado em 17.12.22 por

Nem sempre o que parece supérfluo o é na verdade


Por questão de gosto pessoal, raramente leio obras de não-ficção, mas essa daqui foi uma ótima exceção e também uma agradável surpresa. Sempre gosto de ler ensaios de forma bem mais lenta, a fim de digerir melhor as ideias durante uma pausa entre os parágrafos, mas desta vez, a atraente escrita de Stevenson me trouxe uma leveza maravilhosa à leitura. A sensação que tive era como se o autor estivesse falando comigo num tranquilo diálogo entre amigos. 

Nessa pequena coletânea de ensaios, Stevenson fala com propriedade de coisas que muitas vezes cheguei a refletir mas nunca consegui elucidar através de palavras, por isso me identifiquei tanto com esses textos. São assuntos que tratam do ideal aproveitamento do ócio, do valor de uma boa conversa, do prazer de um passeio a pé e até mesmo sobre como aproveitar lugares desagradáveis. 

Consegui extrair desse pequeno livro muitas lições importantes que irão me acompanhar no meu dia a dia e aprimorar meu senso crítico. Obrigado, R.L.S, por me proporcionar tantos momentos frutíferos de reflexão e aprendizado.

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10/12/2022

Publicado em 10.12.22 por

5 Livros que apresentam gatos como protagonistas

Há séculos, os gatos sempre foram associados à perspicácia e sapiência. São considerados até hoje como animais símbolo de graciosidade e vez ou outra aparecem na literatura como personagens de algum conto ou romance. 

Para os amantes de bichanos e livros, selecionei 5 livros interessantes que trazem gatos como protagonistas bastante peculiares. 

Reflexões do gato Murr (E. T. A. Hoffmann)

Com certeza, essa é uma das melhores obras já escritas com a presença de um gato no enredo. A ironia e sagacidade de Hoffmann ao usar um bichano como narrador são de uma criatividade ímpar e merecem destaque.


Eu sou um Gato (Natsume Soseki)

Aqui temos um bichano altivo que critica todos à sua volta de uma forma bem divertida e ainda provoca reflexões filosóficas muito oportunas. Um dos grandes sucessos da literatura japonesa.


Os Gatos (T. S. Eliot)

Uma coletânea deliciosa de poemas infantis que narram as peripécias de um grupo de gatos de maneira bem afetuosa e agradável. Essa obra inclusive serviu de base para o musical "Cats", que estreou em 1981.


Relatos de um gato viajante (Hiro Arikawa)

A carismática jornada do gato Nana com seu dono Satoru Miyawaki é repleta de aprendizados sobre amizade e autoconhecimento. Uma história sensível e meiga que certamente comoveria qualquer gateiro de plantão.


Sete Vidas: Sete Contos Mínimos de Gatos (Heloísa Seixas)

Essa pequena seleção de contos curtos retrata a natureza dos felinos em situações corriqueiras que abordam diferentes temas do cotidiano.


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03/12/2022

Publicado em 3.12.22 por

Não sei, só sei que foi assim!

Certa vez, Ariano Suassuna contou que um dramaturgo tentara o desencorajar de escrever o Auto da Compadecida sob o argumento de que o estilo teatral estaria ultrapassado e a temática do sertão nordestino desgastada. Além disso, ainda contestou que os nomes dos personagens principais seriam intraduzíveis para outras línguas. O autor claramente não se deixou levar por essas objeções e o resultado vemos hoje nessa que é uma das mais conhecidas (senão a mais popular) peça brasileira. 

Auto da Compadecida é uma daquelas obras que dispensam apresentações, principalmente por ser já tão conhecida do público em geral (mérito esse muito impulsionado pela adaptação que a peça teve para televisão). O leitor que assistiu ao filme não encontrará muitas diferenças na versão original de Suassuna e com certeza dará inúmeras risadas. 

A dinâmica da dupla João Grilo e Chicó é uma das mais engraçadas que já vi e não perde em nada para outras grandes obras cômicas da literatura universal. A propósito, é notório que Ariano bebeu muito das antigas tradições medievais e também da literatura nordestina de cordel, mas todas essas influências ganham um sabor especial na forma como o autor vai desenrolando sua história. Os personagens são caricatos, porém isso faz parte da performance e só enriquece mais a trama. Elementos como a religiosidade e a sátira são pontos fundamentais que se aliam à crítica inteligente de Suassuna numa narrativa assaz cativante.

Após essa leitura, fui rever alguns vídeos de Ariano na internet e novamente me diverti com tantos causos relatados pelo escritor mediante sua vasta experiência de vida. Esse é o tipo de coisa que me faz lembrar do grande legado deixado por autores nacionais que lançaram mão da cultura popular para produzir obras incríveis de nossa literatura.

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26/11/2022

Publicado em 26.11.22 por

Paternidade desolada


Minha primeira escolha para ler Balzac foi certeira! Nesse clássico da obra A Comédia Humana temos uma ótima história com personagens muito bem construídos e pautados num realismo fascinante. O autor soube descrever com fidelidade parte do cotidiano da grande Paris, seja na figura de seus habitantes como também da aristocracia francesa.

Temos no romance o desenvolvimento de duas histórias distintas que se entrelaçam: a do pai Goriot e do jovem estudante Eugène Rastignac. Ambos moram na mesma pensão (a casa Vauquer) juntamente com outras pessoas que compartilham com eles da mesma mesa durante as refeições diárias.

Nesse pequeno círculo, pai Goriot é alvo de constantes chacotas dos outros moradores devido sua personalidade mais reservada e atitudes aparentemente estranhas, porém nem todos sabem do motivo que o fez se isolar naquela pensão. Após certo tempo, ele começa a receber a visita de duas senhoritas elegantes que sempre entram e saem misteriosamente sem nenhuma explicação. Essas duas jovens são suas filhas, que apesar de já casadas com homens ricos, ainda tiram proveito dos últimos bens de seu genitor, o qual faz de tudo para ver o bem delas. Todo pai quer o melhor para seus filhos, mas em se tratando do velho Goriot, dar esse melhor acabou incluindo sacrifícios que o exauriram ao limite a ponto de o mesmo ficar quase sem recursos para sobreviver.

É nessa hora que entra Eugène, que por uma irônica coincidência, acaba se envolvendo com Delphine, uma das filhas de Goriot. Eugène tinha começado a frequentar bailes e reuniões da alta sociedade parisiense e se apoiava na influência de sua prima rica a fim de conseguir adentrar nesse requintado mundo. No entanto, o ambicioso jovem se depara com vários desafios, principalmente por ser de uma classe social mais baixa. Ainda assim, ele se esforça para alcançar seus objetivos em meio ao agridoce sabor das conquistas e frustrações dessa nova fase.

Em meio a esse conjunto de acontecimentos somos levados a diversas reflexões que sempre colocam em evidência pontos importantes nos quais os personagens se encontram envolvidos, seja em jogos de interesses pessoais ou em conflitos éticos. Tudo caminha rumo às consequências das escolhas de cada um dentro desse inconstante redemoinho.

Enfim, sei que A Comédia Humana é uma série bem extensa e com muitos personagens interligados, mas recomendo esse livro em especial para aqueles que ainda não conhecem Balzac e procuram uma boa porta de entrada para sua obra. Eis aqui uma ótima amostra da genialidade deste grande autor francês.

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19/11/2022

Publicado em 19.11.22 por

Albor pueril

Quando criança, o amanhecer era um enigma pra mim. Queria entender como o sol surgia na transição da noite para o dia e achava tudo isso um grande mistério. Desejava muito despertar bem cedo e poder captar o momento certo em que as trevas fugiriam da luz e tudo se transformasse ao calor do Astro-rei. Dormia na esperança de que isso acontecesse, pois na época eu nem sequer tinha um despertador para me ajudar. Enfim, minha curiosidade permanecia incólume com o passar do tempo e aquela doce sensação que eu tinha quando abria os olhos ao acordar sempre me cobrava do espetáculo que eu perdia. 

Foi então que certa vez, por capricho da natureza, despertei por coincidência naquele almejado horário. Fui sem demora ao quintal de casa, que era voltado para o lado onde nascia o sol, e fiquei a observar aqueles raios fulgurantes que abriam caminho em meio à escuridão. A aurora veio e trouxe toda beleza somente encontrada no raiar de um novo dia. Em minha inocente infância, mal sabia eu que aquele vislumbre seria o primeiro de muitos outros. O alvorecer da vida estava apenas começando.

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12/11/2022

Publicado em 12.11.22 por

Enigmas artísticos e literários

A Coleção Particular é uma narrativa breve e curiosa, que deve ser lida sem muitas pausas. Sua trama prende a atenção do leitor por meio de interessantes perspectivas a respeito do acervo de quadros de um misterioso colecionador chamado Hermann Raffke, dando destaque especial a uma pintura extremamente enigmática que é o destaque dessa coleção.

Apesar das descrições sobre os quadros (e suas aquisições) serem tediosas em certos momentos, Perec sabe guiar (e enganar) o leitor muito bem até a chegada da revelação final, quando ficamos a par do verdadeiro pivô que envolve a venda de todo catálogo do famigerado Raffke.

No conto A Viagem de Inverno, temos também um mistério, só que desta vez, ligado ao mundo da literatura. O jovem professor Vincent Degräel encontra um livro de um obscuro escritor, cujo conteúdo teria sido supostamente plagiado de vários trechos memoráveis da literatura francesa do fim do século XIX. A grande questão é que tal livro seria anterior a qualquer uma daquelas famosas obras ditas originais, o que leva Degräel a investigar o caso. 

Em ambas narrativas, Perec brinca com o leitor usando de vários recursos e mesclando diferentes gêneros, além de enriquecer o texto com muitos detalhes temáticos. O autor faz um jogo literário que exercita nossa compreensão ao mesmo tempo em que nos surpreende, fazendo desta uma experiência bastante peculiar de leitura.


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06/11/2022

Publicado em 6.11.22 por

Ecos de vidas distantes

De todas as narrativas de fantasmas que já li, Pedro Páramo é uma das mais originais e enigmáticas. À princípio, parece ser uma leitura desordenada, mas tudo vai fazendo sentido na medida em que os episódios vão sendo apresentados. O romance é dividido em fragmentos que vão se alternando, sendo que a narrativa é construída a partir das vozes de diferentes personagens. Daí, o sobrenatural se confunde com a realidade, onde mortos e vivos comungam da mesma sina no povoado fantasma de Comala. Nesse cenário de desolação vamos acompanhando todo quebra-cabeça que irá mostrar como foi difícil a vida dos habitantes daquele inóspito lugar, onde o cruel Pedro Páramo dominou com mão de ferro até que tudo ao seu redor definhasse com ele.

Não achei a escrita de Juan Rulfo densa, ao contrário, a linguagem usada pelo autor é bastante simples e objetiva, com fortes traços da tradição oral. O pesado nesse livro é somente a atmosfera brumosa e às vezes lúgubre que percorre boa parte da história. No entanto, esse clima não é constante e se reveza com momentos mais tranquilos.

Como qualquer grande clássico, essa é uma obra que não se esgota em suas múltiplas e possíveis interpretações, sendo que não se pode captar todas as inferências de seu enredo apenas numa única leitura.

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29/10/2022

Publicado em 29.10.22 por

Livros adquiridos (set/out 2022)

Já estamos perto do fim de ano e com isso nossa série de publicações a respeito dos novos livros adquiridos em 2022 também se encontra na reta final. Confiram nossas indicações!

Quatro Peças (Anton Tchekhov)

Depois de adquirir dois volumes de contos do Tchekhov, chegou a vez de ter pelo menos algumas de suas peças. Este volume traz quatro das principais obras teatrais do autor: A gaivota, Tio Vânia, Três irmãs e O jardim das cerejeiras. Ao invés de comprar edições com as peças separadas, achei bem mais interessante aguardar por um volume que reunisse algumas delas numa única publicação.

Eugénie Grandet (Honoré de Balzac)

Após a ótima experiência que tive lendo "O Pai Goriot", fui atrás de outras obras de Balzac e lembrei dessa indicação. O livro narra a história de um amor proibido e também aborda temas como o materialismo, ascensão social e o declínio da nobreza francesa na primeira metade do século XIX.

A Aventura do Estilo (Henry James / Robert Louis Stevenson)

Confesso que não sou muito fã de obras de não-ficção (com algumas raras exceções), mas esta, em especial, me chamou muito a atenção. Se trata de um compilado das correspondências trocadas entre os escritores Henry James e Robert Louis Stevenson, grandes amigos, diga-se de passagem. 

• A Cidade e as Serras (Eça de Queirós)

Último romance de Eça de Queirós, narra a história de Jacinto, herdeiro afortunado da antiga aristocracia rural portuguesa, que é obrigado a deixar sua confortável vida na França para tratar de assuntos familiares num pequeno lugarejo serrano conhecido como Tormes.

Janela Indiscreta e Outras Histórias (Cornell Woolrich)

Antologia contendo cinco breves narrativas policiais de um dos mais famosos escritores do gênero (inclusive, o conto que dá título à coletânea foi adaptado ao cinema pelas mãos do grande diretor Alfred Hitchcock). Os outros contos presentes nesse volume são: Post-mortem, Três horas, Homicídio trocado e Impulso

Os Contos (Lygia Fagundes Telles)

Ao contrário do que muitos pensam, essa antologia de contos da Lygia pela Cia das Letras não traz todas suas narrativas curtas, mas apenas aquelas que a própria autora havia permitido publicar em vida (muitos contos de sua juventude não foram mais republicados). Apesar disso, esta é uma compilação interessante que apresenta todos os contos de sua maturidade num único volume, o que faz esse exemplar valer muito a pena. 

Eneida (Virgílio)

Esse poema épico foi escrito por Virgílio no século I a.C. e conta a saga de Eneias, um troiano sobrevivente da Guerra de Troia que viaja errante pelo Mediterrâneo até chegar à península Itálica, onde se tornará o ancestral dos fundadores da Roma antiga.

A morte de Virgílio (Hermann Broch)

Considerado um dos maiores romances do século XX, essa obra reconstitui as últimas horas de vida do poeta romano Virgílio, que viaja de navio até Brundísio a convite de Augusto por ocasião dos festejos de aniversário do Imperador. Narra ainda a decisão frustrada do poeta em queimar sua obra-prima, Eneida, e sua reconciliação final com seu destino.

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21/10/2022

Publicado em 21.10.22 por

A responsabilidade de ter olhos quando os outros perderam

Esse foi o meu primeiro contato com Saramago e, à princípio, estranhei um pouco a escrita peculiar dele, com parágrafos enormes e a ausência de pontuação na maior parte das frases. De certa forma, essa maneira de narrar se aliou perfeitamente às passagens tensas do livro, transmitindo um nervosismo que há tempos eu não sentia numa leitura.

O autor apresenta aqui um verdadeiro laboratório sobre a decadência da natureza humana. Sentimentos desprezíveis, como o egoísmo e a indiferença, são potencializados nessa trama sob o viés extremo da alienação causada pela "cegueira branca". Há situações bastante repulsivas no decorrer dos capítulos e que são consequências inevitáveis do terrível quadro epidêmico que se alastrou.

Aqui vale notar que os personagens não são nomeados, sendo identificados apenas por alguma característica pessoal que os designe. Aos poucos a desumanização deles vai acontecendo, até chegar num ápice onde é difícil manter a razão e a civilidade. Apenas no grupo da mulher do médico (a única pessoa que enxerga) é que ainda existe algum resquício de esperança em meio a todo aquele caos. A sobrevivência vai sendo garantida dia após dia com grandes, e até fatais, dificuldades. Quando chegamos no último capítulo, já estamos tão apreensivos que o alívio do final é sobremodo reconfortante.

Este é um livro que eu não recomendaria pra qualquer pessoa. Apesar de ser uma obra digna da fama que possui, é necessário "ter estômago" pra aguentar certas passagens. Claramente, Saramago quis ilustrar muita coisa através dessa história, como se a mesma também fosse uma parábola a respeito da real condição do homem em uma sociedade arruinada e sem solução, onde todos estariam cegos em seus temores e ignorância. Em contrapartida, o autor também mostra que nem tudo está perdido e que ainda pode existir bondade e compaixão para com o próximo mesmo num mundo repleto de terror e morte.

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14/10/2022

Publicado em 14.10.22 por

Esquadrinhando os conflitos do coração

Antes de tudo, devo ressaltar que a dinâmica dessa história é um pouco diferente daquilo que estamos acostumados a ver, já que a mesma se trata de um romance do século XVII. Justamente por isso, A Princesa de Clèves deve ser lido analisando-se também o contexto histórico-cultural do período em que foi escrito.

Logo no começo, somos apresentados a um quadro de intrigas, ciúmes e traições da corte francesa, sempre envolta em terríveis jogos de interesse. Em certos momentos tive dificuldade em me ater à narrativa devido às idas e voltas que a autora faz constantemente com histórias paralelas (alguns episódios são jogados em meio a uma mistura de personagens que podem facilmente confundir o leitor). Somente na terceira parte é que o romance segue pra uma linha mais concisa e fluida, deixando tudo mais claro, e logo vemos o porquê desse livro ser considerado um dos precursores do romance psicológico ao acompanharmos de perto os pensamentos da senhora de Clèves e do duque de Nemours em suas desventuras amorosas. A propósito, Albert Camus certa vez disse que nessa obra "há uma desconfiança constante em relação ao amor", e é assim que realmente se sucede por parte dos principais personagens.

O enredo realista que aborda a luta da heroína contra sentimentos adúlteros é completamente diferente para os padrões de sua época. Madame de La Fayette vai ainda mais além e cria um drama sem nenhum direito a finais felizes ou momentos açucarados. O que temos são conflitos pessoais que pululam a cada instante até a chegada de um anticlímax nada acalentador. 

A senhora de Clèves, mesmo sofrendo com as consequências de seu destino, se torna uma representação indômita da luta contra os desejos mais confusos do coração. Ela decide subsistir de forma implacável perante as contrariedades da vida e encontra nisso um propósito honrado que deve ser seguido a todo custo, ainda que tal escolha possa lhe omitir a felicidade.

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04/10/2022

Publicado em 4.10.22 por

Projeto Viagens Extraordinárias


Image source: Vantik (DeviantArt)

Visionário e imaginativo, Jules (Júlio) Verne já cativou milhares de leitores por meio de uma extensa e produtiva obra repleta de instigantes aventuras. Uma das principais características de suas histórias são as ricas informações geográficas dos lugares narrados, além da famosa "jornada do herói", que mostra o protagonista superando vários obstáculos até conquistar sua meta. Outro elemento bastante abordado pelo autor são os curiosos avanços tecnológicos presentes de forma interessante em muitas das máquinas/dispositivos usados pelos seus personagens (isso, inclusive, deu origem ao conceito chamado steampunk, que é um subgênero da ficção científica). 

Quem me acompanha por aqui sabe que sou um grande admirador de Júlio Verne. O apreço que tenho por suas obras começou quando eu ainda era criança. Na época, minha mãe havia comprado pra mim e minha irmã diversos clássicos adaptados, sendo que 20 Mil Léguas Submarinas estava entre os volumes daquela coleção. Apesar das ilustrações simples e do texto enxuto, aquela fascinante história do capitão Nemo e seu submarino ficou marcada na minha memória afetiva. Mais de duas décadas depois, quando comecei a comprar os primeiros exemplares da minha biblioteca particular, adquiri essa obra em sua versão integral e a partir dessa leitura, me animei na busca por outros livros do autor. Com o passar do tempo, decidi ler pelo menos um título dele por ano, até concluir todos os volumes que eu já tinha da série Viagens Extraordinárias, no entanto, por falta de planejamento, acabei falhando na proposta. 

Em 2021, retomei o meu modesto projeto de leitura anual das obras de Verne. Não estou seguindo nenhuma linha cronológica por ordem de publicação, mas tenho escolhido os títulos apenas por afinidade com a sinopse (até porque não tenho a coleção completa). A seguir, cito uma pequena relação das obras já lidas e pretendo atualizá-la sempre que concluir algum livro do autor.

2015: Vinte Mil Léguas Submarinas

2016: A Volta ao Mundo em 80 DiasViagem ao Centro da TerraMiguel Strogoff

2018: O Testamento de um Excêntrico

2021: A Estrela do SulO Eterno Adão (lido na antologia Das Estrelas ao Oceano)

2022: Cinco Semanas num Balão 

2023: Da Terra à Lua 

2024: Uma Cidade Flutuante 

2025: Os Quinhentos Milhões da Begum (leitura a começar)

Para acessar a resenha de cada obra, basta clicar no título da mesma.

OBS: Alguns livros podem não ser considerados precisamente parte da série, pois são obras póstumas ou com uma premissa diferenciada (como por exemplo: Paris no Século XX e O Eterno Adão). Mesmo assim, achei interessante inseri-los no projeto.

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27/09/2022

Publicado em 27.9.22 por

Ideias ótimas que não foram bem trabalhadas

Robert Silverberg criou ótimas premissas para essa coletânea, porém a sensação que tive foi de que tudo tinha sido abordado de maneira um tanto superficial (até mesmo para os moldes de um conto). O desenvolvimento de algumas histórias chega a ser bom, como em "Estrada para o anoitecer" e "A contraparte", mas em vários pontos faltou um encadeamento mais eficaz que "costurasse" melhor a sequência dos eventos narrados com a proposta dos contos. Quanto aos argumentos científicos, eles são bem interessantes, mas não se sustentam muito justamente devido ao problema já citado. Silverberg se perde diversas vezes no caminho, deixando de aproveitar excelentes ideias que certamente renderiam narrativas exemplares para o gênero. Apesar de tudo, esta foi uma leitura que conseguiu me entreter, ainda que com essas ressalvas.

Destaques:

Os exógamos 
Estrada para o anoitecer
A contraparte

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18/09/2022

Publicado em 18.9.22 por

Quando o trágico e o cômico andam juntos

Nikolai Gogol foi um dos pioneiros da literatura russa moderna. Sua obra apresenta diferentes metáforas e simbolismos, indo do realismo ao fantástico. Além disso, o grotesco sempre caminha ao lado de seus personagens tragicômicos em situações muitas vezes bizarras e sem explicação. Nesta antologia, lançada pela editora 34, temos cinco contos que dão prova da genialidade do autor. Vamos a eles: 

Repleto de crítica social, "O Capote" fala de desigualdades e da falta de empatia pelo próximo. O protagonista Akáki é alvo de constantes humilhações por parte de seus colegas e sofre uma perda inestimável ao ter seu precioso capote roubado.

A ironia afiada de Gógol é bem presente em "Diário de um Louco", onde o protagonista vive um delírio esquizofrênico de poder e riqueza em meio a situações constrangedoras e engraçadas.

"O Nariz" é uma sátira mordaz revestida de história cômica. Todo absurdo dessa história traz um forte teor crítico à burocracia russa da época. A história parte do momento em que o nariz de um major some de seu rosto e toma vida própria.

"Noite de Natal" é uma narrativa folclórica do ciclo ucraniano que mistura elementos pagãos com tradições cristãs. Há nela uma série de peripécias envolvendo o diabo e os habitantes de um povoado durante uma véspera natalina.

"Viy" também é inspirado em velhas lendas do imaginário russo. É um dos contos mais sinistros que já li. Trata da luta de um estudante de filosofia contra forças sobrenaturais ligadas à uma jovem bruxa morta.

Obviamente, as figuras usadas por Gógol não são aleatórias e possuem um papel importante em cada história, por isso, o leitor deve-se ater ao contexto sociocultural russo/ucraniano do início do século XIX a fim de compreender melhor certas questões. Quanto a isso, a edição da 34 ajuda bastante com várias notas de rodapé e um ótimo posfácio. Recomendo!

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12/09/2022

Publicado em 12.9.22 por

Considerações de 1 ano do blog

No dia 10 de setembro esse despretensioso blog completou 1 ano de existência. Quando o criei, eu já tinha algumas dezenas de mini resenhas publicadas timidamente lá no Skoob. Eram impressões de leituras feitas entre 2014 a 2021 e nunca tinha pensado em publicá-las em outro lugar, no entanto, motivado pela minha esposa, resolvi organizar todos aqueles pequenos textos aqui, assim como falar de outras coisas que sempre tive vontade a respeito de livros. Fazer isso serviu também como uma forma de terapia e continua me ajudando a lidar com a ansiedade e certos problemas de déficit de atenção.

Embora já tenhamos postado em nosso blogspot todas as resenhas referentes até o ano passado (e algumas de 2022 também), lá no Instagram ainda faltam diversas delas e iremos publicá-las na medida em que formos captando novas imagens com ambientações interessantes para cada livro. Devido às nossas ocupações profissionais e domésticas, às vezes nem temos um tempo livre pra isso, mas quando conseguimos um espaço, aproveitamos logo a oportunidade. 

Enfim, darei prosseguimento sempre que possível às atividades aqui do blog, por isso, não deixe de nos visitar. É um imenso prazer poder compartilhar esse amor pela leitura e incentivar outras pessoas pelo mesmo. Muito obrigado por nos acompanhar e curtir nosso trabalho! 

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09/09/2022

Publicado em 9.9.22 por

Qual o limite entre a loucura e a sanidade?

Machado mais uma vez se superou em uma história repleta de fina ironia e perspicácia. Nessa pequena novela, o médico Simão Bacamarte diagnostica como loucura qualquer característica particular que possa aparentar uma possível "ameaça" à saúde pública e assim vai vivendo uma série de controvérsias que acabam afetando toda população de Itaguaí e até ele mesmo. A principal questão que fica então é: o que realmente distingue uma pessoa louca de uma sã?

Dos vários escritos de Machado de Assis, esse é certamente um dos que achei mais engraçados e mordazes. A crítica que o autor faz ao cientificismo é incisiva e com boas doses de humor, sendo tudo isso expresso de maneira bem enxuta em poucas páginas. Por essas e por outras que Machado é o meu autor brasileiro favorito. 

Obs: Apesar de ser uma narrativa curta, essa novela apresenta muitas referências que podem passar despercebidas ao leitor. Recomendo alguma edição com notas de rodapé, que ajudam bastante na contextualização de certas passagens. Há desde edições mais simples, como a da Martin Claret e da L&PM Pocket, até outras mais luxuosas, como da Antofágica.

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05/09/2022

Publicado em 5.9.22 por

Desafios num mar de incertezas


Boa parte das obras de Conrad mostram o mar como pano de fundo de suas histórias e esta, em especial, reflete muito da própria vida do autor, que também foi um marinheiro durante vários anos.

A Linha de Sombra inicia com um jovem marujo determinado a deixar seu ofício, porém, logo é convencido a tomar a frente de um navio como capitão. Nessa empreitada, o protagonista (o autor não revela seu nome) enfrenta diversos problemas a bordo: supostos mistérios e maus presságios acompanham a tripulação o tempo todo e criam um ambiente apreensivo que só irá acabar no último capítulo. Em suma, vemos que o romance expõe simbolicamente o rito de passagem entre a juventude e a maturidade através das experiências do jovem capitão nessa difícil jornada.

Quanto à dinâmica da narrativa, Conrad chega a ser lento em muitas descrições, mas depois melhora o ritmo a partir da terceira parte. Nessa altura, o vocabulário náutico é capaz de deixar o leitor mais leigo perdido em alguns pontos, mas nada que um bom glossário não resolva.

Enfim, mesmo com a ambientação marítima (que tanto amo) e um bom plot, esse não ficou entre os meus livros preferidos do autor, mas admito que há ótimos momentos que fazem o mesmo valer a leitura.

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30/08/2022

Publicado em 30.8.22 por

Livros adquiridos (jul/ago 2022)

Nesse bimestre, conseguimos uma ótima variação de títulos da literatura mundial. Confiram abaixo! 

• O Tartufo - Dom Juan - O doente imaginário (Molière)

O dramaturgo francês Molière é considerado um dos mestres da comédia satírica. Neste volume temos três das mais conhecidas peças do autor, as quais abordam temas como a hipocrisia e a corrupção nos vários setores sociais, bem como as falhas e virtudes da alma humana.

• A Dama do Cachorrinho e outros contos (Anton Tchekhov)

Tchekhov é um dos maiores contistas de todos os tempos e nesta coletânea, traduzida e organizada por Boris Schnaiderman, temos vários de seus melhores contos, abrangendo diversas fases da carreira desse célebre escritor.

Jane Eyre (Charlotte Brontë)

A obra prima de Charlotte é também considerada um "romance de formação", apresentando a trajetória da heroína Jane desde sua infância até a vida adulta. A narrativa possui várias características góticas, além de retratar a emancipação feminina quanto a liberdade de ideias e ao trabalho já na Era Vitoriana.

Samurai (Shusaku Endo)

Esse é um romance histórico que narra a jornada de alguns dos primeiros japoneses a pisar em solo europeu e o consequente choque cultural que surgiu a partir desse encontro. A história apresenta aspectos bem interessantes sobre a relação conflituosa do antigo Japão com o Cristianismo.

Auto da Compadecida (Ariano Suassuna)

Uma das mais famosas peças brasileiras, essa obra traz o que há de melhor em nosso teatro. A argúcia e o humor de Ariano Suassuna tem o seu ápice nas peripécias da dupla João Grilo e Chicó, figuras altamente cômicas que se envolvem em diversas confusões no vilarejo de Taperoá, no sertão da Paraíba.

• A Casa da Alegria (Edith Wharton)

Esse clássico norte-americano narra a história da personagem Lily Bart em sua tentativa de se manter entre a alta sociedade nova-iorquina do início do século passado. A autora expõe nessa obra várias críticas sociais no que diz respeito à situação da mulher naquela época.

Solaris (Stanisław Lem)

Ampliando minha prateleira de clássicos da ficção científica, adquiri esse romance que conta a história de um grupo de cientistas que estudam uma inteligência extraterrestre, a qual assume a aparência de um grande oceano em um planeta alienígena chamado Solaris. Pelas resenhas que já vi a respeito, é uma obra de caráter bem filosófico e existencial.

Trilogia Tebana (Sófocles)

Não se pode duvidar que o teatro ocidental possui fortes influências da obra de Sófocles, que trouxe diversas inovações para a tragédia grega. Esse volume lançado pela editora Zahar reúne as três peças que narram a famosa saga de Édipo, personagem mais conhecido do autor. 

Contos Completos (Liev Tolstói)

Finalmente, consegui o box com todos os contos desse grande autor russo. Essa edição traz a apresentação do tradutor Rubens Figueiredo e um posfácio de Tolstói publicado em 1859. O contexto histórico em que os contos estão inseridos revela um período de grandes transformações culturais e sociais na Rússia durante o final do século XIX e início do século XX.

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26/08/2022

Publicado em 26.8.22 por

A idealização do amor romântico em sua essência


Parte das obras de José de Alencar revelam muito da rotina urbana brasileira do século XIX, com destaque principalmente no Rio de Janeiro e na sociedade burguesa da época, como é o caso das duas pequenas obras deste volume. As mesmas podem parecer altamente simplórias para o leitor moderno, mas apresentam uma narrativa que consegue chamar atenção mesmo com todo sentimentalismo acentuado de seu estilo.

Em Cinco Minutos acompanhamos a sofrida jornada do narrador protagonista na busca por sua misteriosa amada. Aqui temos toda a idealização do amor romântico com direito a diálogos poéticos e boas doses dramáticas. Em A Viuvinha o foco também é o amor e o matrimônio, porém com uma temática que aborda um pouco mais a questão do autossacrifício e o cumprimento dos deveres morais. 

Pra todos os efeitos, essas duas novelas são eficientes no que propõem e até se complementam de certa forma (inclusive, aconselho a lê-las em sequência). Alencar estava começando sua carreira quando as escreveu e já demonstrava vários aspectos de sua genialidade como romancista. 

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22/08/2022

Publicado em 22.8.22 por

Poirot não tem sossego nem nas férias

Morte no Nilo é mais uma envolvente aventura de Hercule Poirot, que desta vez, se encontra de férias no Egito e depara-se com um misterioso caso de assassinato de uma jovem rica. Como quase sempre, Agatha primeiro nos apresenta o quadro de personagens que irão participar da trama e depois, junta todos no mesmo cenário onde acontece o crime. Os diálogos são ágeis e concisos, apresentando as prováveis pistas que podem facilmente enganar o leitor no decorrer dos capítulos. Como quaisquer outras informações sobre o enredo podem revelar spoilers, me limito apenas a esses detalhes.

Mesmo usando fórmulas já empregadas em outros de seus livros, a autora se saiu muito bem nessa obra, a qual não deixa margem para furos de roteiro e nem expõe soluções forçadas. Mais um que entrou pra minha lista de favoritos da Rainha do Crime.

OBS: Um ponto a ressaltar nessa edição da HarperCollins é a falta de notas de rodapé que esclarecessem os trechos em francês, que não são muitos, mas que precisam ser traduzidos para situar melhor o leitor na compreensão do contexto.


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19/08/2022

Publicado em 19.8.22 por

Recomendações de Filmes #2

Continuando nossa série de indicações de filmes baseados em livros já lidos por aqui, segue mais uma lista de bons títulos para você conferir.

O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, 1992) 

Sinopse: O jovem órfão Heathcliff é adotado pela rica família Earnshaw e muda-se para sua propriedade, Wuthering Heights. O novo residente se apaixona por sua compassiva irmã adotiva Cathy. Os dois compartilham um vínculo notável que parece inquebrável até Cathy, sentindo a pressão da convenção social, reprime seus sentimentos e se casa com Edgar Linton, um homem de posses que está à sua altura.

Memórias Póstumas de Brás Cubas (2001)

     

Sinopse: Após ter morrido, em pleno ano de 1869, Brás Cubas decide por narrar sua história e revisitar os fatos mais importantes de sua vida, a fim de se distrair na eternidade. A partir de então ele relembra de amigos como Quincas Borba, de sua displicente formação acadêmica em Portugal, dos amores de sua vida e ainda do privilégio que teve de nunca ter precisado trabalhar em sua vida.

O Senhor das Moscas (Lord of the Flies, 1990)    

Sinopse: Depois de um acidente de avião, um grupo de garotos estudantes chega a uma ilha. Eles acabam se dividindo em dois grupos. Enquanto um é organizado, o outro recorre à selvageria e usa o medo do desconhecido para controlar os outros.

Grandes Esperanças (Great Expectations, 2012)

Sinopse: O órfão Pip começa a crescer na vida graças à ajuda de um benfeitor misterioso. Ele passa a ganhar espaço e conviver em meio à alta sociedade londrina, portando-se como um verdadeiro cavalheiro. Já adulto, Pip resolve usar seu status para impressionar a bela Estella, por quem sempre foi apaixonado. O problema é que a origem da fortuna recentemente adquirida por Pip é obscura e acaba por provocar consequências devastadoras às pessoas que vivem ao seu redor.

Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express, 2017)

Sinopse: Um assassinato ocorre em um luxuoso trem e treze passageiros se tornam suspeitos do crime. O famoso detetive Hercule Poirot, que também estava a bordo, precisa correr contra o tempo para resolver o caso.

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16/08/2022

Publicado em 16.8.22 por

Desbravando o desconhecido

Em Viagem ao centro da Terra, acompanhamos a fascinante jornada do professor Lindenbrok juntamente com seu sobrinho Axel e o fiel ajudante Hans em direção ao interior da crosta terrestre. Novamente, Verne explora vários conceitos científicos, os quais servem de apoio ao romance, durante todo o trajeto da aventura e sempre brinda os leitores com interessantes surpresas. 

Ao longo da narrativa é fácil perceber a forma didática como as informações vão sendo apresentadas, aguçando ainda mais a nossa curiosidade em cada descrição das descobertas feitas pelo trio de exploradores. O otimismo que Verne demostra quanto ao progresso da ciência é algo bem presente, inclusive nos momentos onde ele recorre a teses que hoje sabemos serem apenas conjecturas daquela época (como a teoria da "Terra Oca", por exemplo).

Sem dúvida, esse livro foi a base para muitas outras obras que posteriormente vieram abordar temas similares, ainda que de forma mais superficial. A ficção-científica não seria a mesma sem a rica contribuição de Júlio Verne a esse surpreendente universo. 

Obs: Para aqueles que querem conhecer mais a fundo os termos científicos usados pelo autor e até algumas referências históricas citadas, aconselho a edição comentada da Zahar, que é muito eficaz nesse quesito.

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12/08/2022

Publicado em 12.8.22 por

O Som e a Fúria que arrasam tudo ao seu redor


Até hoje me pergunto como um livro de narrativa tão confusa e caótica se tornou um dos meus favoritos. "O Som e a Fúria" foi um marco na minha vida de leitor e vejo que o fato de o ter lido numa época em que estava enfrentando terríveis crises de depressão me trouxe um impacto tão forte que o resultado não poderia ser diferente de uma fortuita epifania.

Pelo pouco que pude constatar, não são muitos leitores brasileiros que apreciam a obra de Faulkner. Ele é daquele tipo de autor que divide opiniões (aqui, não me refiro à crítica especializada), mas cuja genialidade impõe respeito mesmo assim. Ainda que alguns possam achar que ele seja um tanto monotemático, não se pode negar que seus livros exploram com muita competência as sutilezas da alma humana, principalmente, em meio à degradação moral e social. 

Na sua obra máxima, O Som e a Fúria, Faulkner destrincha a gradativa ruína da aristocrática família Compson, assim como suas consequências. Fazendo uso de uma narrativa nem um pouco linear nas duas primeiras partes do romance, o autor cria um verdadeiro caleidoscópio de perspectivas, misturando passado e presente em várias passagens fragmentadas através do fluxo de consciência dos narradores. As outras duas partes restantes já são mais "convencionais" em sua estrutura, dando uma visão mais clara dos acontecimentos, bem como da conclusão da trama. 

Em certas páginas me vi aflito com a difícil situação em que personagens estavam mergulhados: conflitos familiares, indiferença, intenções suicidas, canalhice, preconceitos raciais... Era um espelho sujo que refletia coisas horrendas que repudiamos, mas que no fundo, já toleramos alguma vez sob certas circunstâncias de caráter duvidoso. Toda aquela decadência correspondia de certa forma com o caos dentro de mim, ainda que eu não fosse necessariamente um praticante assíduo de tais atitudes nefastas. Isso me fez ver de modo claro que a minha condição não era diferente de tantos outros que também se encontravam presos aos caprichos de sua própria ignomínia.

Me lembro que quando terminei essa leitura me senti em estado de êxtase por vários minutos, digerindo aos poucos aquele desfecho. Um turbilhão de pensamentos girou na minha cabeça e saboreei cada lampejo daquele instante ímpar. Havia chegado a um clímax que nem eu mesmo esperava e aquele sobressalto foi o suficiente para me fazer emergir da letargia emocional que tanto me sufocava. Saindo desse mergulho constatei que a literatura verdadeiramente tem o poder avassalador de mudar vidas, ainda que para esse fim seja necessário um confronto direto com nossos medos e traumas mais profundos.

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08/08/2022

Publicado em 8.8.22 por

Combate Interior

Poderia ter conseguido mais, embora minhas forças não alcançassem tanto. Quem sabe, fazendo sacrifícios que eu não tinha avaliado ou procurando ter um pouco mais de paciência, seria capaz de me superar além do previsto. De qualquer forma, continuei tentando. 

Viver sempre me fora um desafio intransigente e abstruso, repleto de todas aquelas incontáveis partículas de receio e ansiedade. Cada passo dado era uma admissão para um novo conflito e suas dolorosas consequências.

Todas as vezes em que a guerra surgia momentos de insegurança me cercavam. Vozes dissonantes impregnavam meus pensamentos, amordaçando meus sentidos num duelo sem fim. Nem sempre resistir bastava, era necessário também acreditar. Crer na voz maior que ainda podia ser ouvida em meio à tempestade. A voz dAquele que traria bálsamo e alívio para minhas dores.

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04/08/2022

Publicado em 4.8.22 por

Apreensões em forma de chuva

Apesar de curto e inacabado, este conto de Eça de Queiroz mostra com destreza o talento que o autor português tinha em criar excelentes narrativas. A história se passa no decorrer de alguns dias chuvosos onde o protagonista divaga a respeito de muitas apreensões enquanto aguarda o temporal passar a fim de conhecer melhor uma quinta que ele deseja adquirir. Nesse ínterim, ele também acaba nutrindo um sentimento de paixão pela filha do proprietário daquele lugar mesmo a conhecendo apenas pelos relatos do padre local, que é o seu anfitrião durante aquela estadia. 

Vale ressaltar que as ilustrações que acompanham essa linda edição da saudosa Cosac Naify são do artista plástico Eloar Guazzelli e enobrecem ainda mais o livro, fazendo do mesmo uma pequena obra de arte.

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31/07/2022

Publicado em 31.7.22 por

Metamorfose além das aparências


Estranheza é o que define minha sensação quando li esse livro. Sei que ele pode ter inúmeras interpretações, mas o impacto pra mim permanece o mesmo. Kafka foi um dos autores que mais deu "nó na minha cabeça" e isso não foi de qualquer jeito. A maneira como ele envereda pelas inquietações e conflitos internos do ser humano é algo que chega a ser angustiante na grande maioria das vezes, causando um atípico desconforto em qualquer leitor. 


A Metamorfose possui tantas facetas que a obra continua icônica e significativa até os dias de hoje. Todo intenso desprezo que Greg sofre durante sua triste lida mostra muito mais do que uma mera história fantástica sobre um pobre desafortunado, antes, expõe aquilo que há de mais cruel e pernicioso na humanidade: a nossa própria indiferença para com o próximo.

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27/07/2022

Publicado em 27.7.22 por

Uma observação sobre a tradução de Wuthering Heights

Há certo tempo vi algumas pessoas reclamando daquilo que chamaram de "sotaque" na fala de alguns personagens de O Morro dos Ventos Uivantes nas traduções lançadas pelas editoras L&PM e Martin Claret. No entanto, mal sabem esses leitores que o romance em inglês possui mesmo uma variação​ linguística. Trata-se do dialeto de Yorkshire, que nas traduções de Guilherme da Silva Braga e Solange Pinheiro Carvalho foi adequado para uma forma mais compatível à nossa realidade. 

As antigas traduções de Wuthering Heights feitas aqui no Brasil nunca levaram isso em consideração devido a dificuldade de tradução do dialeto. Particularmente, gosto dessa proposta de transposição porque nos passa uma ideia aproximada da linguagem que Emily Brontë realmente escreveu em tais passagens do romance. Obviamente, não se trata de verter literalmente o texto original para o nosso idioma, mas sim utilizar dos recursos linguísticos presentes na língua original para criar uma representação desta variante no português brasileiro. É claro que isso não é motivo para desprezar o trabalho de outros tradutores. Estamos apenas diante de propostas diferentes e sempre é bom fazer um cotejo de várias traduções da mesma obra.

Por fim, acho interessante compartilhar alguns estudos acadêmicos acerca desse assunto e por isso indico os seguintes trabalhos:

A tradução do socioleto literário: um estudo de Wuthering Heights

Uma análise comparativa do dialeto de Yorkshire presente na obra Wuthering Heights e da sua representação na tradução da mesma obra de 2011

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