15/04/2023

Publicado em 15.4.23 por

Retornando aos CDs

Recentemente, me deu uma vontade enorme de voltar a usar CDs para ouvir músicas. A nostalgia bateu forte, confesso, mas não foi apenas por isso que me decidi a retornar aos velhos moldes de audição. Desde que o streaming surgiu, sempre me senti um tanto quanto "deslocado" dessa alternativa mais cômoda e prática. Obviamente, não estou condenando o uso desse recurso (inclusive, ainda uso bastante Spotify e YouTube), mas não há como negar que minha experiência com a mídia física sempre foi bem mais intensa. 

Desde criança, quanto tive meu primeiro contato com o vinil, achava espetacular todo aquele processo de pegar o disco, colocá-lo pra tocar e olhar a capa/encarte do mesmo. Cresci em meio a centenas de discos e fitas K7 de meus pais, tios e avós, além de participar inúmeras vezes daquele antigo costume de sentar diante da vitrola/microsystem e apreciar a escuta de álbuns completos sem ficar pulando faixas. Tanta afinidade com a música naturalmente me levou para o lado mais técnico da coisa, me dando interesse para aprender saxofone e violão, ainda que de forma amadora, mas isso já é uma outra história.

Pois bem, o tempo foi passando e a tecnologia evoluindo. As mídias físicas foram ficando obsoletas e quase todo mundo foi se desfazendo de suas discotecas. Com o fim da era do CD, eu ainda mantive meu acervo pessoal somente como lembrança de um tempo esquecido. Já tinha todas aquelas músicas em MP3 e isso pra mim bastava. No entanto, após anos dessa mudança, eis que agora mudo de ideia.

Me lembro de certa vez em que o ator Keanu Reeves disse numa entrevista que estamos desperdiçando muitas coisas na vida, e uma delas é o sentido do tato. Através da tecnologia digital, temos vantagens de espaço e portabilidade, mas por outro lado, perdemos a experiência única de "sentir" o produto em nossas mãos (idem para os livros). Talvez, isso não faça diferença alguma para a maioria das pessoas, mas pra mim, tal afirmação do ator de Matrix resumiu tudo aquilo que eu sentia a respeito desse tema.

Foi justamente esse pensamento que me fez recordar das vantagens que os CDs possuem em relação a outras opções de áudio, como streaming ou downloads digitais, e são esses prós que faço questão de citar aqui, mesmo que eles sejam bastante óbvios para quem já conhece o assunto. 

Qualidade de áudio: CDs oferecem qualidade de som superior à maioria dos arquivos de áudio digitais, especialmente quando comparados com arquivos comprimidos, como o MP3. Isso porque o CD usa um formato de áudio sem perdas, o que significa que a qualidade do som não é comprometida para economizar espaço em disco.

Propriedade física: Um CD é um objeto tangível que você pode manter, tocar e exibir em sua coleção. Isso pode ter um valor sentimental para algumas pessoas, especialmente para aqueles que cresceram colecionando CDs. Além do mais, os encartes incluem conteúdo exclusivo que muitas vezes não são encontrados na internet, como: ficha técnica, letras de música, fotos e todo conceito artístico idealizado para o álbum.

Dados offline: Com um CD, você não precisa de acesso à Internet ou de uma conexão estável para ouvir música. Isso é especialmente útil se você está em uma área com conexão limitada ou instável. 

Compatibilidade: CDs são compatíveis com a maioria dos reprodutores de CD e DVD, o que significa que você pode ouvi-los em diferentes dispositivos e sistemas de som (muitos ainda estão disponíveis no mercado). Sem contar que você também pode ripar o CD, convertendo as faixas em um arquivo digital se quiser.

Preço: CDs físicos são geralmente mais baratos do que as versões digitais, especialmente se você comprar CDs usados (ainda que não seja tão fácil encontrar certos títulos por aí). O único "porém" seria o preço do frete no tocante às compras online, mas se você mora numa cidade onde há lojas especializadas no ramo, certamente irá encontrar boas opções.

Disponibilidade: Embora a maioria das músicas estejam disponíveis em formato digital, alguns títulos raros ou de artistas independentes podem não estar disponíveis na internet. Nesses casos, o CD pode ser a única opção para conseguir a música que você deseja.

Por último, eu seria injusto se não falasse também das desvantagens que os CDs possuem, tais como: o espaço ocupado em casa, riscos de danos físicos e limitação de armazenamento de músicas por disco. Outro ponto desfavorável é que o processo de compra e reprodução de CDs é menos conveniente do que o de serviços de streaming (que estão a um "clique" de distância), mas na minha opinião, vai de cada um a preferência em qual tipo de meio utilizar, pois tudo pode ser facilmente equilibrado, unindo sempre o útil ao agradável. 

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08/04/2023

Publicado em 8.4.23 por

Um futuro diferente? Talvez, nem tanto...

Fiquei surpreso ao ver como "The Silver Eggheads" é ironicamente profético para os tempos em que estamos vivendo, onde a inteligência artificial alcançou patamares admiráveis, a exemplo do ChatGTP e outros modelos similares. No momento em que publico esta resenha, já existem diversos autores e especialistas preocupados com o impacto dessa tecnologia de IA na autoria de livros, questão essa que teve um resultado nada amistoso na história de Leiber, a qual iremos falar aqui. 

Num futuro próximo, os escritores são considerados uma espécie excêntrica de celebridade e elaboram seus livros com base em máquinas chamadas "fábricas de palavras" que, na verdade, fazem todo o trabalho no lugar dos supostos autores. Nessa época, o próprio conceito de escrita autoral já teria se perdido há muito tempo e os livros se tornaram apenas produtos de entretenimento barato regados a uma tecnologia apelativa cheia de experiências sinestésicas. Até aí, a humanidade também já teria vencido todos os tipos de frustrações e emoções negativas mediante o uso de substâncias medicamentosas e tratamentos especiais que sanariam até mesmo problemas psiquiátricos. 

Justamente em meio a esse contexto de comodismo e automação criativa, surge uma revolta por parte dos escritores, que não aceitam mais serem meros fantoches daquele sistema e começam a destruir as máquinas editoras. O problema, a partir de então, seria como desenvolver a capacidade de escrita, uma vez que ninguém fazia a mínima ideia de como criar um texto. Para solucionar isso, são convocados grandes escritores do passado, os quais estariam apenas com seus cérebros conservados dentro de um aparelho oval prateado. 

Com esse plot inovador pra época, Leiber soube conduzir bem a sua narrativa, ainda que os diálogos não tenham tanta profundidade e sua prosa não seja tão hábil quanto de outros escritores do gênero sci-fi. O autor é provocativo ao debater sobre questões éticas e cultura de massa e consumo (um dos principais temas do enredo), além de usar muito da ironia. No final das contas, este é um livro bastante despretensioso, mas que não deixa também de ter seus momentos "sérios".

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01/04/2023

Publicado em 1.4.23 por

Sobre livros com o selo de venda proibida

Quem é acostumado a comprar livros usados em sebos com certeza já deve ter se deparado com algum exemplar contendo o famoso selo do Ministério da Educação juntamente com o aviso de "venda proibida". Por algumas vezes, caí na lábia de vendedores e "troquei gato por lebre" ao adquirir livros bem baratos que traziam o bendito selo. Como na época eu não tinha muita experiência, não pedia fotos ou mais informações a respeito dos exemplares e acabava ignorando uma possível devolução do produto por mera preguiça de correr atrás do prejuízo. 

No entanto, a fim de saber mais sobre a procedência de livros assim, procurei depois me informar sobre o assunto. Imaginava que tal selo indicasse apenas que a obra pertencesse a alguma biblioteca pública, mas não sabia que também poderia ter sido doada pra alunos do Ensino Fundamental e Médio. De qualquer forma, descobri que a política do Estante Virtual reprovava a venda de exemplares desse tipo e daí em diante passei a prestar mais atenção nos anúncios e sempre perguntar aos livreiros sobre os detalhes das edições.

Recordando dessas experiências, lembrei ainda de quando minha mãe, que também é professora, me deu três exemplares "selados", mas desta vez, soube que os livros estavam sendo doados na escola onde ela trabalha. Nesse caso, não vi objeção nenhuma que me fizesse rejeitar aqueles livros, já que sabia qual era a procedência legal dos mesmos (lembrando que muitos exemplares de divulgação também são direcionados ao corpo docente). 

Enfim, creio que esse é um tema que depende muito das circunstâncias para ser avaliado adequadamente, sendo necessário levarmos sempre em conta a origem do livro. Ter cuidado nunca é demais nessas horas.

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