30/04/2022

Publicado em 30.4.22 por

Livros adquiridos (mar/abr 2022)

Do jeito que as coisas andam, entre cupons e promoções, creio que continuarei fazendo uma postagem bimestral dos livros adquiridos nesse ano. Dessa vez, boa parte dos exemplares foram comprados durante a semana do consumidor, a qual teve descontos excelentes para vários títulos. 

Tarzan (Edgar Rice Burroughs)
Esse clássico pulp não estava em meus planos, mas aproveitei uma boa oportunidade e o adquiri por um valor bem irrisório. Mesmo que essa história já esteja bem impregnada na mente de quase todo mundo, achei interessante conferir a versão original, já que dizem haver diferenças significativas nela em relação às adaptações cinematográficas.

A Dama de Espadas - prosa e poemas (Aleksandr Púchkin)
Púchkin é um dos autores que não pode faltar na estante de um apreciador de literatura russa. Considerado por muitos como o real fundador da novela russa moderna, seu papel foi fundamental no contexto literário de seu país. Essa antologia da editora 34 reúne três novelas, quatro contos e dezesseis poemas do autor.

O Guarani (José de Alencar)
Esse era um dos clássicos que estava faltando na minha prateleira de obras brasileiras. Se trata de um romance histórico de caráter indianista onde é retratado o conflito entre portugueses e índios, além da representação do indígena como herói nacional.
 

O Homem Duplicado (José Saramago)
A temática do duplo é uma das que mais gosto na literatura. Nessa obra de Saramago esse assunto parece ser abordado de maneira bem interessante, envolvendo fortes debates a respeito da identidade e questionando o papel do indivíduo no meio social.

A Abadia de Northanger (Jane Austen)
Este é um romance póstumo, mas curiosamente, foi o primeiro a ser concluído por Austen. Se trata de um livro mais leve se comparado aos outros da autora, com pitadas cômicas e diversas críticas ao romance gótico e à sociedade da época. 

Contos de Odessa (Isaac Bábel) 
No final de março, a editora Cia das Letras promoveu uma iniciativa muito boa, destinando todo o lucro da venda desse livro para ajudar as vítimas da crise na Ucrânia. Essa antologia de contos revela muito do cotidiano ucraniano do início do século passado, época em que se consolidavam as mudanças causadas pela revolução russa.

Os Demônios (Fiódor Dostoiévski)
Conhecida como uma das obras mais densas do Russo dos russos, esse livro faz críticas contundentes às ideologias revolucionárias radicais e prevê com eficácia o advento delas, as quais só eclodiriam com força a partir do século XX.

O Jardim Secreto (Frances Hodgson Burnett)
Esse é um clássico infantil já bastante conhecido, principalmente, devido aos filmes baseados nele. Ainda que para muitos essa história pareça ingênua, a jornada de desenvolvimento pessoal dos personagens é trabalhada de maneira bem singular, cativando até mesmo os adultos com sua narrativa.

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28/04/2022

Publicado em 28.4.22 por

Brancas noites de São Petersburgo


Noites Brancas nos traz o típico protagonista dostoievskiano: um homem deslocado do mundo e que não se encaixa nos moldes da vida em sociedade. Aqui, porém, mais do que em qualquer outra obra do autor, vemos um sentimentalismo bastante evidente. Apesar desta carga sentimental, o romance não beira a diálogos piegas ou simplórios, ao contrário, tudo é muito bem dirigido e estruturado.

Pra minha surpresa, esta edição da Penguin ainda trouxe um conto extra, intitulado Polzunkov, que foi um dos primeiros escritos de Dostoievski. Nessa breve história, vemos uma faceta mais trágico-cômica do Russo dos russos, que nos presenteia com as desventuras de um personagem trapaceiro na busca por contentamento e prestígio social.

Apesar de ambas serem narrativas bem distintas entre si (sendo a primeira mais fluida enquanto a segunda, mais intrincada), a destreza do autor é tão apurada que conquista o leitor atento desde a primeira página até a última.

Noites Brancas encanta pela pureza e pela dor da ilusão enquanto Polzunkov provoca um riso amargo diante da pequenez humana. Achei interessante esta edição reunir esses dois textos, pois isso permite ao leitor perceber o quanto Dostoievski dominava tanto o lirismo romântico quanto a crítica irônica das fragilidades sociais.

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24/04/2022

Publicado em 24.4.22 por

Histórias diferentes, mas sutilmente relacionadas

Apesar de na maioria das vezes optar por narrativas lineares, escolhi ler essas duas novelas de maneira alternada mesmo, da forma como já estão dispostas no livro.

"Palmeiras Selvagens" apresentou toda complexidade de um relacionamento amoroso nada convencional pra época, principalmente, ao mostrar as incertezas e insegurança de Wilbourne e Charlotte em seus conflitos pela busca de uma vida agradável a ambos.

"O Velho", narra o embate de um foragido condenado contra a própria natureza. Surpreendido pela grande enchente do rio Mississipi, ele não tem outra escolha a não ser lutar com os mínimos recursos disponíveis para sobreviver e ainda ajudar uma mulher grávida durante essa jornada.

Ambas histórias expõem a perspicácia de Faulkner no tratamento de cada personagem em meio a desafios pessoais, ainda que os mesmos tragam resultados desfavoráveis. Interessante perceber que apesar de certas atitudes questionáveis desses personagens, a cumplicidade que o leitor acaba tendo com eles se estreita na medida em que a trama avança. Assim como em outras obras do autor, meu esforço na leitura foi maior, porém, a compensação recebida valeu muito a pena.

OBS: em outras edições, esse livro pode ser encontrado também com o título de "Palmeiras Bravas".

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20/04/2022

Publicado em 20.4.22 por

Músicas não relançadas também tem o seu valor


Atualmente, é perceptível a ausência de centenas de títulos musicais dentro das plataformas digitais, o que acabou motivando uma busca incessante de tais obras pelos admiradores de vários artistas/bandas, os quais viram diversas dessas gravações serem esquecidas no decorrer dos anos, ao ponto de serem jogadas praticamente no limbo. Através deste quadro, criou-se uma verdadeira "arqueologia virtual" em torno de discos raros, desde os clássicos vinis dos anos 60/70, passando pelos sucessos dos anos 80 e, finalmente, os álbuns mais contemporâneos a partir da década de 90. É notável que muitas músicas voltaram a ser valorizadas recentemente não só devido a nostalgia coletiva, mas por causa da forte relevância cultural e alta qualidade das letras/melodias que estes trabalhos possuem até hoje. Quem é discófilo há pelo menos 25 anos e acompanhou o crescimento da música popular brasileira sabe do que estou falando.

A começar pelas gravadoras de renome, vemos um amplo catálogo de excelentes álbuns que, infelizmente, não foram relançados em formato digital. Muitos outros selos ainda encerraram suas atividades abruptamente, levando consigo um vasto número de memoráveis discos/singles que marcaram a vida de milhares de ouvintes brasileiros (e estrangeiros). E o que falar das gravadoras remanescentes, que apesar de ainda estarem na ativa, omitem completamente de seus catálogos raridades ímpares que as mesmas não relançam simplesmente porque aquele cantor ou banda não faz mais parte de seus casts? Nessa esfera, inclui-se também as diversas questões judiciais envolvendo ambiciosas disputas de copyright. 

Ademais, para os que não possuem “alternativas legais” a fim de ter consigo aquela sua velha e estimada canção, resta-lhes apenas o bom uso da criatividade aliada à modernidade tecnológica do século XXI, pois qualquer usuário habilidoso de computador hoje em dia pode converter as músicas de um dispositivo analógico para o formato digital usando programas específicos de captura de áudio (inclusive, muitas almas bondosas já fizeram isso e publicaram várias pérolas no YouTube). Para quem não encontrou ainda o que procurava, o desafio agora é conseguir uma boa vitrola acompanhada de um toca-fitas K7 (que ainda estejam funcionando, é claro). Depois de ripadas as músicas para mp3, basta apenas dar o play e viajar no tempo. Como já dizia aquele velho ditado popular: “recordar é viver”, e em se tratando de canções, sabemos que “música boa jamais envelhece, vira clássico!”

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16/04/2022

Publicado em 16.4.22 por

Do policial ao surreal


Diferente de tudo que eu imaginava, O Homem que foi Quinta-feira me foi uma grata surpresa. A dinâmica narrativa se ajustaria muito bem a um roteiro cinematográfico sem quaisquer ressalvas adicionais. Tudo se passa de maneira tão instigante que imergimos sem precedentes na história, onde temos o resoluto protagonista Gabriel Syme dando um equilíbrio mais do que necessário ao enredo em momentos onde o suspense se alterna até mesmo com o cômico.

O ar onírico da reta final da aventura me deixou um tanto perplexo e confesso que alguns pontos permaneceram um mistério para mim, mas como o próprio subtítulo do livro diz ("Um Pesadelo") levei em consideração que nem sempre as coisas precisam fazer total sentido quando se está sonhando.

Dessa forma, atribuir a esse livro analogias voltadas a parábolas ou simbolismos afins não invalidam em nada a construção do romance. De igual modo, a roupagem de gênero policial não destoa do desfecho, ainda que o mesmo seja divergente para muitos leitores.

Obs: em edições mais recentes, esse livro pode ser encontrado com o título de "O Homem que era Quinta-feira".

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12/04/2022

Publicado em 12.4.22 por

Caleidoscópio interior


O romance de estreia de Clarice já nos apresenta todas as sutilezas que fariam parte de sua obra. Ao perscrutar as profundezas da alma humana, a autora desnuda os pensamentos e sensações da enigmática Joana, nos apresentando a "selvageria" que impulsiona a personagem em toda sua forma de ser. No início, vemos uma menina perdida que não encontra seu lugar no mundo, mas que aos poucos vai aprendendo (ou não) com as perdas e revezes da vida. Já adulta, enfrenta dilemas em um ambiente tão hostil e indecifrável quanto ela mesma.

Uma das características marcantes que sempre me impressiona em Clarice são os oportunos "insights" de seus textos, até mesmo quando ela trata de algo aparentemente banal ou corriqueiro. Nesta obra, há várias passagens memoráveis assim que merecem ser destacadas.

Por ser uma narrativa bem fragmentada e densa, tive que ter uma atenção redobrada na leitura e até revisar diversos parágrafos. Clarice é desse jeito: tão profunda que sempre tem algo a nos dizer ainda que seja nas entrelinhas.

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08/04/2022

Publicado em 8.4.22 por

Sons & Sentidos

A música adentrava em seus ouvidos como etérea substância em leve fluidez, indo e vindo, sem nunca se fragmentar no caminho. A sonora sina era uma jornada interior que funcionava como uma intensa terapia: sarava sua mente e sarava sua alma. Talvez não haveria mais nada que tivesse um efeito tão pleno ao ser sentido. As vibrações sonoras assumiam seu papel de agentes catalisadores e jamais falhavam em sua missão. Ao final de tudo, seus pulmões respiravam as mais célebres e agradáveis melodias. 

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04/04/2022

Publicado em 4.4.22 por

Sobrevivência em meio à solidão

É completamente desnecessário falar aqui o quanto esse livro se diferencia de suas adaptações ao cinema, no entanto, a pessoa que o lê pela primeira vez precisa logo ter em mente que todos aqueles clichês apocalípticos que hoje em dia estão saturados na cultura pop ainda não eram nada vigentes na época em que essa obra foi lançada. Assim sendo, percebemos que os elementos apresentados em Eu Sou a Lenda soam bastante originais e pode-se dizer que esta é uma distopia que envelheceu muito bem.

A instigante história de Robert Neville nos transforma em seus cúmplices durante toda sua solitária saga, repleta de momentos inquietantes e desolados. Tudo isso se torna ainda mais intenso mediante os fatores psicológicos explorados pelo autor ao nos apresentar uma verossimilhança que não passa despercebida (tenho certeza de que a maioria das pessoas agiriam da mesma forma que Neville se vivessem no mesmo tipo de situação).

Sentir a angústia do protagonista me fez refletir sobre o próprio estado da condição humana perante sua eminente extinção, seja ela moral, física ou até mesmo espiritual. Com os rumos que a humanidade anda seguindo atualmente, vejo que a ficção não está tão longe assim da realidade.

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