30/12/2023

Publicado em 30.12.23 por

Leituras concluídas em 2023

Nem sempre a gente consegue ler tudo que pretendia durante o ano, e isso é totalmente compreensível, afinal de contas, a vida é muito corrida e cheia de revezes. Contudo, me sinto recompensado por todas as leituras que fiz em 2023 e me encho de alegria ao relembrar de cada experiência que tive com esses livros. Foram momentos não somente de reflexão, como também de aprendizado e entretenimento, os quais fizeram valer a pena todo tempo dedicado à leitura. 

A partir de 2024 começaremos uma nova jornada com mais livros ainda não lidos (como já disse em outra ocasião, não pretendo fazer releituras por enquanto). As resenhas de 2023 que ainda estou terminando de escrever irão ser publicadas nas próximas postagens, aproveitando também o período de recesso e o tempo em que estarei focado na leitura de mais um tijolão do nosso projeto anual (que a propósito, será "A Montanha Mágica", de Thomas Mann).

No demais, só tenho que agradecer a todos vocês que tem nos acompanhado até aqui. Os aguardo em nossas próximas jornadas literárias!

A seguir, os títulos do livros que fizeram parte da meta anual 2023:

• Dom Quixote de la Mancha (Miguel de Cervantes)

• Os Cérebros Prateados (Fritz Leiber)

• A dama do cachorrinho e outros contos (Anton Tchekhov)

• Os Trabalhadores do Mar (Victor Hugo)

• Vidas Secas (Graciliano Ramos)

• O tenente Quetange (Iuri Tyniánov)

• Um, nenhum e cem mil (Luigi Pirandello)

• O Jogador (Fiódor Dostoiévski)

• Labirinto de Espelhos (Josué Montello)

• Adeus, Mr. Chips (James Hilton)

• Drácula (Bram Stoker)

• Da Terra à Lua (Júlio Verne)

• Grandes obras de Shakespeare vol. 1: Tragédias [Romeu & Julieta; Hamlet; Otelo, o mouro de Veneza; Macbeth]

• O Doutor Negro e outros contos (Arthur Conan Doyle)

• Uns Contos (Ettore Bottini)

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16/12/2023

Publicado em 16.12.23 por

Fazendo apostas no jogo da vida

Faz algum tempo que Dostoiévski se tornou um dos meus autores preferidos e cada livro dele tem me trazido grandes surpresas e insights espetaculares. Desta vez, não foi diferente. Ainda que O Jogador tenha sido escrito às pressas, em menos de um mês, o autor conseguiu novamente imprimir uma complexidade emocional ímpar em seus personagens, nos apresentado um mundo onde as paixões se desenrolam em meio à forte adrenalina do risco e da perda.

Uma coisa que achei bastante peculiar nesse livro foram as diversas pitadas de humor, as quais ainda não tinha visto desse jeito em nenhuma outra obra de Dostoiévski. Nessa novela, há passagens sarcásticas que se entrelaçam com situações sérias em boa parte dos capítulos. Outra curiosidade notável é que o próprio autor também era um jogador compulsivo e trouxe um pouco de sua experiência pessoal para essa obra.

A propósito, embora o título faça referência ao jogo, a obra não se atém completamente a esse aspecto durante toda a trama, pois há um conjunto tão grande de situações em torno da família do general e das peripécias do jovem preceptor Aleksei Ivánovitch que o cassino acaba ficando em segundo plano. Em contrapartida, o dinheiro é o pivô de quase todas as relações dos personagens e seus problemas, da ascensão à ruína.

Interessante notar que Dostoiévski questiona a natureza do jogo tanto no sentido literal como numa metáfora para os riscos que enfrentamos em nosso cotidiano. O livro também reserva um espaço para reflexões a respeito do valor do amor e a busca pelo sentido da vida sob as tortuosas dúvidas do coração. Certamente, não há como ler essa obra sem se encantar com a talentosa escrita do Russo dos russos. Esse é mais um que vai pra minha lista de favoritos.

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10/12/2023

Publicado em 10.12.23 por

Trocas feitas no Skoob (parte 3)

Chegamos ao final de nossa última temporada de trocas no Skoob (por enquanto). Usei todos os créditos restantes com mais uma remessa de excelentes títulos, mas desta vez, demorou um pouco pois nem sempre eu conseguia encontrar algum livro que estivesse na minha lista de desejados. Mas como quem acredita sempre alcança, uma hora a gente consegue. 

Como de costume, abaixo segue uma pequena sinopse de cada livro.

• O Deserto do Amor (François Mauriac)

A trama gira em torno de um intrigante triângulo amoroso, envolvendo um pai e seu filho apaixonados pela mesma mulher. O autor traz reflexões sobre as inquietações da juventude, a luta contra os impulsos carnais e o ciúme, oferecendo uma análise profunda sobre as complexidades do amor e das relações humanas.

O Sonho dos Heróis (Adolfo Bioy Casares)

Narra a história de Emílio, um jovem que viveu acontecimentos marcantes durante um carnaval, mas não consegue se lembrar de nada do que ocorreu. Nos três anos seguintes, Emílio é atormentado pela falta daquelas recordações, o que o leva a buscar respostas para os eventos misteriosos e significativos que se passaram naquela noite.

Antes que os pássaros acordem (Josué Montello)

Nesta obra ambientada na França, Montello mergulha nas inseguranças e receios de nossa época, explorando questões ligadas aos valores universais por meio de suas personagens e da atmosfera parisiense, criando uma narrativa ímpar que transcende fronteiras geográficas e culturais.

O Apanhador no Campo de Centeio (J.D. Salinger)

O livro acompanha um jovem rebelde chamado Holden Caulfield em sua jornada de três dias pela cidade de Nova York, enquanto ele busca sentido em sua vida e tenta entender o mundo adulto que o cerca. O romance é uma reflexão sobre a adolescência, a alienação e a procura por autenticidade.

Equador (Miguel Sousa Tavares)

É um romance que se desenrola em São Tomé e Príncipe durante o período colonial português no início do século XX. A trama segue Luís Bernardo, um advogado que troca sua vida luxuosa em Lisboa por uma missão patriótica como governador nas ilhas africanas, onde irá confrontar dilemas morais em meio a um ambiente tenso e divergente.

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25/11/2023

Publicado em 25.11.23 por

Façanhas que superam o improvável

Obra clássica no gênero de ficção científica, Da Terra à Lua é um dos livros mais "proféticos" de Júlio Verne, que com suas descrições detalhadas antecipou de maneira notável as conquistas da exploração espacial, a qual só viria à tona quase um século depois da publicação desse volume.

A história se inicia com a apresentação do "Gun Club", um clube de entusiastas de armas de fogo que, entediados após o fim da Guerra Civil Americana, procuram um novo desafio. Eles decidem então criar um projétil que possa ser disparado até a Lua e, a partir daí, a trama segue os membros do clube em sua busca pela realização desse feito, incluindo a construção de uma arma de fogo gigante e a escolha dos tripulantes que farão parte da missão.

Algo bem evidente nesse romance é que o autor quase não foca nos personagens, mas dá prioridade às questões técnicas que envolvem a tão cobiçada viagem à Lua. Na maior parte do tempo, há excesso de informações científicas a fim de dar mais solidez ao argumento da obra. Com tantos dados, tive a impressão de que Verne realmente escondeu alguns códigos secretos por entre a narrativa, pois nada ali parece ter sido colocado à toa (existem até mitos a respeito disso). Ao final de tudo, o livro encerra dando espaço para uma continuação que o autor só publicaria quatro anos depois, em 1869 (intitulada "Ao redor da Lua").

Apesar de apresentar pouca ação se comparado a outros títulos da série "Viagens Extraordinárias", essa aventura se destaca pela meticulosa abordagem astronômica numa época em que a tecnologia ainda estava longe de qualquer realização fora do planeta Terra. Além disso, a audácia de Barbicane e seus amigos também demonstra o quanto se pode conseguir fazer quando há pessoas trabalhando unidas em prol de um objetivo em comum, mesmo que seja algo aparentemente impossível de conquistar.

Créditos da imagem de fundo: @peedritta 
(Foto tirada no Centro de Convenções de Barreirinhas-MA)
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19/11/2023

Publicado em 19.11.23 por

A Camisa Azul

Queria muito ter comprado aquela camisa-azul marinho, não muito diferente das outras que eu já tinha em casa. Apesar de não se diferenciar do restante do meu guarda-roupas (repleto também de camisas azuis), achei por um momento que seria uma boa aquisição, uma vez que a etiqueta interna do produto trazia a atraente mensagem de “edição limitada” e encontrar outro modelo daquele seria bem difícil.

Refleti então que isso poderia implicar no meu possível desejo de comprar mais uma roupa somente pelo “ar de novidade”. Se bem que o fim do ano seria o apelo mais razoável para se renovar o vestuário, afinal, todo mundo gosta de usar trajes novos no Natal e no réveillon. Outra questão seria a proximidade do meu aniversário, mas se fosse por isso, valeria a pena comprar um presente para mim mesmo ou eu deveria ceder à ilusão de que outra pessoa pudesse me dar algo parecido? De qualquer maneira, não pude deixar de perceber que a influência meramente comercial e consumista quase sempre é a mais gritante acima de tantos outros motivos.

Camisa cara, mas bonita, um pouco grande no tamanho, mas poderia ser ajustada na costureira depois (coisa que minha avó fazia tão bem). Fiquei estacionado no dilema concernente ao preço: poderia eu pagá-la? Meu contrato de emprego tinha chegado ao fim naquela semana e as contas pendentes já protestavam nos meus lembretes diários, cada uma, apresentando seus incômodos valores e possíveis juros.

Nesse instante, um desconforto me invadiu, deixando-me indiferente ali na entrada daquela loja. Olhando para a rua, pude notar então as pessoas indo e vindo, com sacolas e embrulhos nas mãos, como se fossem um exército de formigas levando suas provisões para o inverno através de tortuosas estradas. Será que algum daqueles indivíduos também passara pela mesma situação que eu estava enfrentando ou será que todos compraram sem nenhuma hesitação? Talvez sim, talvez não. Mesmo assim, a vida deles era outra, quiçá com as mesmas razões, mas motivos e impulsos particularmente distintos dos meus, ainda que pudessem ser aparentemente similares.

Meu olhar desviou-se da multidão e voltei-me novamente para a camisa outrora almejada. Já não me sentia mais tão atraído por ela, mas decidi entrar em outra sessão da loja a fim de pesquisar roupas mais baratas. Olhei... Olhei... mas nada enchera meus olhos da mesma forma como a camisa de “edição limitada”. Voltei então decidido a me arriscar em comprá-la, mas quando cheguei ao manequim que vestia a mesma, notei que ela já não estava mais lá. Virei o rosto de lado e vi que outro cliente a estava levando. Bem, pelo menos, eu havia tentado.

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11/11/2023

Publicado em 11.11.23 por

Desafiando as sombras de um mal antigo

Expoente máximo do terror clássico, Drácula me trouxe surpresas que romperam com aquela visão estereotipada que eu já tinha da obra devido suas inúmeras adaptações na cultura pop (inclusive, já falei sobre uma experiência parecida com "Frankenstein" em outra resenha). Sei que é quase impossível desassociar essa obra de seus derivados modernos, mas ao lê-la, tentei deixar de lado algumas dessas influências para me deter apenas no escopo original de Bram Stoker (que achei bem mais interessante).

Um aspecto curioso é que a história se desenrola por meio de uma série de cartas, diários e recortes de jornais, criando um formato narrativo diferenciado para a época. O suspense é constante, sempre dando lugar a novas descobertas feitas pelos heróis da trama. A ambientação gótica impressa nessa obra é de certa forma tão envolvente que imerge o leitor numa jornada repleta de elementos intrigantes que mantêm a tensão e o fascínio ao longo de toda a narrativa.

Outra questão que preciso enfatizar é o fato de que o mal em Drácula nunca é tratado como algo relativo ou ambíguo, ao contrário, é mostrado sempre como uma coisa ruim que deve ser combatida e derrotada com muita coragem e determinação. Assim que Van Helsing e seus amigos entendem a gravidade do problema que estão enfrentando, isso é bastante notório, inclusive, nos pontos cruciais onde a proteção e a resignação divinas são indispensáveis para a vitória.

Enfim, uma coincidência legal que percebi no último capítulo foi que o período de conclusão da minha leitura combinou com a mesma sequência de dias registrados pelos personagens no final da história (1 a 6 de novembro). Com um desfecho rápido, porém satisfatório, o livro encerra entregando um dos maiores romances literatura, provando que sua relevância e impacto tem resistido facilmente ao teste do tempo, conquistando assim novos leitores e ajudando a perpetuar o legado do gótico clássico.

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28/10/2023

Publicado em 28.10.23 por

Perseverança sob as ondas da adversidade

Apesar de "O Velho e o Mar" ser um dos meus livros preferidos, ainda não tinha postado uma resenha pra ele. Essa foi justamente a primeira obra do Hemingway que adquiri alguns anos atrás e até hoje me recordo dela com grande satisfação.

O que mais me surpreendeu na época em que a li foi a maneira como o autor teceu uma prosa enxuta e incisiva que espelhasse de forma simples, mas ao mesmo tempo grandiosa, a luta de Santiago contra o relutante marlim. Em cada página, eu era levado a refletir a respeito de sentimentos como coragem e perseverança, torcendo para que o protagonista conseguisse superar todos aqueles reveses.

Relembrando desse fascinante livro, vejo que a solidão de Santiago e seu relacionamento com o peixe podem ser facilmente entendidos como uma metáfora para a luta do homem contra a natureza e seu próprio destino. Nisso, a narrativa é pontuada por momentos de introspecção que são muito bem representados na icônica frase do autor que diz: "Um homem pode ser destruído, mas não derrotado".

"O Velho e o Mar" é um livro que transcende fronteiras e é capaz de tocar o coração de qualquer pessoa que aprecie uma boa história que fale sobre resiliência e esperança. É certamente uma das obras que preciso reler qualquer dia desses, além de continuar recomendando como dica de leitura para quem ainda não conhece o grande escritor que foi Ernest Hemingway.

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21/10/2023

Publicado em 21.10.23 por

Explorando os aspectos sombrios da natureza humana

"No Coração das Trevas" é uma obra que mergulha no profundo da alma e examina os horrores da natureza humana quando confrontada com o desconhecido. Apresentando uma narrativa densa e de atmosfera perturbadora, esse livro nos leva a uma jornada sinistra pelos recantos mais obscuros da África colonial, onde o protagonista Marlow segue em missão de resgate do misterioso Kurtz, cuja influência exerce um poder hipnótico sobre todos aqueles que o encontram.

A escrita de Conrad é magistral, repleta de metáforas vívidas e descrições impressionantes. O leitor é facilmente transportado para as entranhas da selva do Congo, onde a linha entre a civilização e a barbárie se torna fatalmente tênue. Por meio de seu estilo introspectivo, o autor nos faz questionar os limites da nossa própria humanidade e confrontar o mal que ainda vive à espreita dentro de cada um de nós.

Esse foi um dos raros livros que me fizeram experimentar de perto a intensidade das sensações descritas na história. Por vezes, eu parava a leitura, respirava e olhava à minha volta só pra a ter certeza de que não estava dentro daquela selva assustadora, sendo observado pela escuridão. Um clima asfixiante e receoso se manifestava através das linhas daquele livro relativamente pequeno, porém, poderoso.

Meu contato com essa obra foi de fato uma experiência tão marcante que fez com que Conrad passasse a ocupar um lugar especial na minha biblioteca desde então, de onde sempre tenho incluído algum de seus livros em meus planos de leitura.

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14/10/2023

Publicado em 14.10.23 por

Coleções brasileiras da Rainha do Crime

Mundialmente famosa por seus romances policiais, Agatha Christie desfrutou de uma produtiva carreira com dezenas de livros publicados e era de se esperar que houvesse também diversas coleções em torno do conjunto de sua obra. Aqui no Brasil, várias editoras já lançaram os sucessos da autora, seja em edições simples ou de luxo. Nessa postagem, irei focar apenas nas mais recentes.

HarperCollins

Não faz muito tempo, a HarperCollins começou a reformular sua coleção da Agatha, trazendo um conceito mais minimalista nas capas, o que não agradou muita gente. Até confesso que a maioria delas é bem preguiçosa, porém, algumas ainda conseguem trazer certa elegância ao visual proposto. Mesmo assim, sou daqueles que preferem as edições dos antigos boxes. 

L&PM

As capas da L&PM seguem o mesmo padrão de uma das coleções inglesas da Rainha do Crime que, por sinal, tem ótimas ilustrações. Pelo fato de serem as edições mais baratas do mercado (seja na versão pocket ou convencional), os livros possuem um acabamento mais frágil e sem orelhas, além da diagramação ser mais apertada.

Globo Livros

A coleção da Globo Livros é brochura, mas tem orelhas na capa e uma encadernação mais firme. Infelizmente, a mesma não abarca muitos volumes se comparada com as outras. Uma curiosidade que vem ao caso é de que a coleção da Folha de São Paulo possui as mesmas traduções da Globo e da L&PM, sendo apenas uma reedição limitada e mais econômica. 

Finalizando, faço também uma menção honrosa às antigas edições da Record/Altaya, Nova Fronteira e Círculo do Livro, que mesmo estando fora de catálogo, ainda são as favoritas para muitos leitores. 

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30/09/2023

Publicado em 30.9.23 por

O estranho inseparável de mim

De maneira inusitada, Pirandello quebra a "quarta parede" e convida o leitor a se envolver diretamente com essa curiosa história, a qual é centrada em Vitangelo Moscarda, um homem aparentemente comum que, em um determinado momento de sua vida, percebe que as pessoas ao seu redor têm uma percepção diferente de sua imagem e personalidade. Algo resumido na ideia de que o "eu" que não é visto por mim, mas pelos outros, seria uma persona completamente alheia e distinta do que realmente penso ao meu respeito. Esse outro "eu", estranho a mim mesmo, é o foco das discussões do protagonista, que procura saber qual seria a verdadeira essência de sua identidade.

Pirandello toma esse ponto de partida para abordar vários diálogos inteligentes e reflexões profundas que nos fazem questionar a noção de uma identidade fixa e coerente, sugerindo que somos, na verdade, uma constelação de personas que se manifestam de diferentes maneiras dependendo do ponto de vista de cada indivíduo. O autor também critica a tendência das pessoas em rotular e definir os outros com base em aparências superficiais, mostrando como isso pode levar à alienação e ao desconhecimento de si mesmo.

Mesmo sendo uma obra repleta de digressões em quase toda narrativa (o que exige uma leitura mais calma), há momentos onde a vida do protagonista também ganha destaque. Muitas situações insólitas vão acontecendo à medida que Moscarda tenta "decompor" a imagem que ele acha que as outras pessoas tem dele, o que o leva a consequências nada boas.

Esse foi um romance que li num momento bastante propício, pois as reflexões dele caíram como uma luva em várias indagações que eu estava lidando até então. A única diferença é que não tive de ir tão longe quanto o Moscarda para constatar aquilo que, por previsão segura, já poderia ser discernido sem muitos riscos.

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17/09/2023

Publicado em 17.9.23 por

Entre a Lousa e o Coração

Há histórias singelas e cativantes que não precisam de muita coisa para conquistar o leitor e este livro é uma prova eficaz disso. Como sou professor, me identifiquei muito com a sinopse dessa obra ainda que não conhecesse quase nada de James Hilton. Encontrei um exemplar de "Mr. Chips" num sebo virtual, já que é um título que está esgotado há décadas, e me interessei em lê-lo assim que ele chegou.

A trama é centrada em Arthur Chipping, um professor de latim em uma tradicional escola de meninos em Brookfield. O livro segue a vida de Mr. Chips ao longo de mais de cinquenta anos, desde seu início tímido e reservado como professor novato até sua maturidade como educador carinhoso e amado.

No decorrer dos capítulos, acontecimentos que são aparentemente comuns na vida do protagonista se revelam como algo bem mais significativo em suas lembranças à medida que vamos avançando na história. Chips vai envelhecendo em meio às mudanças da sociedade britânica na transição do século XIX para o XX e, aos poucos, acompanhamos sua gradual transformação à medida que ele se adapta a essas transformações sociais e políticas.

Com uma narrativa habilmente terna e leve, essa leitura foi uma experiência bastante agradável e, porque não dizer, "saudosista". É fácil se apegar a Mr. Chips e apreciar sua devoção aos alunos, assim como sua paixão pelo ensino. As memórias do estimado professor me trouxeram uma sensação doce de recordações de uma época que não vivi, mas que ao mesmo tempo, se relacionam com aquilo que experimento todos os dias em sala de aula.

Esse é um livro que celebra a importância dos educadores e a influência positiva que eles podem ter nas vidas de seus alunos. É uma obra que nos faz refletir sobre a passagem do tempo e os valores duradouros da educação mesmo em tempos tão duvidosos.


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10/09/2023

Publicado em 10.9.23 por

Considerações de 2° ano do blog

Desbravar novos mundos através dos livros tem me trazido grandes aprendizados. Há sempre uma novidade a ser descoberta e as surpresas nunca param de surgir no meio do caminho. Cada livro é uma porta aberta para realidades diferentes e inúmeras formas de compreender melhor essa nossa complexa existência.

E assim, a passos moderados, chegamos então ao segundo ano deste blog. Consequentemente, as postagens passaram a ter uma frequência menor por motivos que já expliquei antes, mas estou satisfeito em continuar lendo sem a mínima pressa, assim como publicar as resenhas dentro das minhas possibilidades de tempo e disposição.

Ultimamente, tenho dado bastante prioridade aos clássicos até porque são eles os que mais despertam a minha atenção. Quanto aos livros que mostrei na sessão de adquiridos, acho interessante colocar alguns nas próximas metas de leitura, pois são obras que desejo conhecer há bastante tempo mas que só agora consegui comprar. No demais, minha intenção tem sido ainda priorizar leituras inéditas, já que não planejo entrar em releituras por enquanto, uma vez que há muita coisa não lida me aguardando nas prateleiras.

Falando nisso, recentemente, mudei minha biblioteca com mais de 500 livros para um local bem melhor, em um cômodo mais arejado da nossa nova casa. Minha esposa havia dado a ideia de aproveitarmos esse espaço e ficamos satisfeitos com o resultado. Agora, além de morarmos num ambiente mais sossegado pra leitura, dispomos também de um lugar exclusivo para nosso acervo pessoal.

E desse modo vamos seguindo, espalhando esse intenso amor pelos livros. Quando compartilhamos nossas leituras, seja em resenhas, conversas ou em um blog como este, estamos conectando mentes e corações com pessoas que compartilham dessa mesma paixão. Muito obrigado a todos vocês por sempre apreciarem nossas publicações e seguirem nossa página.

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27/08/2023

Publicado em 27.8.23 por

O absurdo que explica a realidade

De leitura rápida e leve, esse pequeno livro traz uma curiosa trama que me lembrou muito as obras de Kafka com aqueles tipos de situações improváveis que permeiam todo enredo. Por ser uma sátira sutil e engraçada, algumas nuances podem passar despercebidas ao leitor que não conhece o contexto histórico da época em que a obra foi escrita, por isso, sempre é bom ficar atento aos detalhes. 

A história se passa na corte do Tsar Paulo I, na Rússia do final do século XVIII. O Imperador fica fascinado com as histórias de um suposto herói militar chamado "Tenente Quetange", que na verdade não passa de uma invenção proveniente de um erro em um relatório. Enquanto o Imperador se encanta com as histórias do tal Tenente, a burocracia do governo tenta manter a farsa, inventando missões e sucessos fictícios para o oficial inexistente, o que acaba gerando uma série de eventos cômicos. 

Ao introduzir esse personagem imaginário que afeta profundamente a realidade, Tyniánov questiona a noção de autoridade e as falhas inerentes ao sistema burocrático. Essa inversão irônica lança luz sobre os absurdos e contradições presentes na administração estatal, criticando as estruturas de poder e controle que governavam a sociedade russa naquele período. 

Essa é uma novela sensacional que vai além de seu tempo e continua relevante até os dias de hoje, pois levanta questões sobre a natureza da verdade e a manipulação da narrativa em busca de objetivos políticos.

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20/08/2023

Publicado em 20.8.23 por

Uma ode a São Luís do Maranhão

Essa é a primeira vez que leio um romance ambientado em um lugar que conheço pessoalmente. Não seria exagero falar que as ruas e bairros descritos por Montello são velhos conhecidos meus e posso dizer que os mesmos ainda preservam um pouco daquela áurea clássica que a capital maranhense tinha no passado. Sem sombra de dúvidas, a cidade de São Luís é o grande destaque desse livro.

"Labirinto de Espelhos" narra a história da rica Tia Marta e seus parentes, os quais aguardam impacientemente pela morte da idosa na esperança de conseguir alguma parte na herança. Justamente por isso, a trama apresenta um embaraçado jogo de interesses por trás das motivações dos familiares da velha senhora. A propósito, o título do livro aparece na seguinte passagem que narra uma das costumeiras visitas que os parentes faziam à sua tia:

"Havia ali, nessas ocasiões, uma espécie de labirinto de espelhos humanos, diante dos quais se refletia a mordacidade de Tia Marta."

Em toda obra vemos o quanto a escrita do autor é elegante sem nunca ser pomposa, o que proporciona uma leitura bastante agradável. Há surpresas cômicas e pontos de virada adequados com o desenvolvimento da história, deixando os elementos da mesma bem coesos. Falando nisso, algo que me pegou de surpresa foi o prelúdio do romance (intitulado "Na paz da noite") que pensei a princípio ser apenas um conto à parte tamanha é sua concisão. 

Montello com certeza merecia mais destaque e tem sido injustamente esquecido tanto pelos críticos como pelos veículos literários nos últimos anos. Apesar dos esforços da Casa Josué Montello em republicar algumas de suas obras, ainda há muito que fazer para resgatar tantas preciosidades da bibliografia do autor, as quais hoje em dia só podem ser encontradas nos sebos ou em antigas livrarias.

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05/08/2023

Publicado em 5.8.23 por

Recomendações de Filmes #3

Selecionei aqui mais algumas dicas de filmes adaptados de clássicos que já lemos em nosso projeto anual de leitura. São produções de países bem distintos e que valem a pena conferir!

Moby Dick (2011)

Sinopse: O Capitão Ahab está obcecado por capturar Moby Dick, a enorme baleia que lhe arrancou a perna e o encheu de ódio. Ele está disposto a sacrificar tudo, seu barco e sua vida se for necessário, para encontrar e destruir o inimigo.

O Pai Goriot (2004)


Sinopse: A história de um pai que empenha tudo o que tem em prol da felicidade das duas filhas, que desprezam o seu amor embora não se privem de nada para desfrutar daquilo que ele lhes rende, a saber, uma vida confortável na Paris mundana da sua época.

Vidas Secas (1963)    

Sinopse: A triste saga de uma família pobre da região seca do Nordeste e sua luta diária por trabalho e comida para sobreviver e superar as dificuldades do ambiente árido em que vive.

Cinco semanas num balão (1962)


Sinopse: No século 19, quatro exploradores britânicos tentam cruzar a África em um balão de ar quente. O grupo pretende reivindicar o território desconhecido na misteriosa região oeste do continente.

Dom Quixote (1957)


Sinopse: O Sr. Quijano leu tantos livros de cavalaria que acredita ser um cavaleiro andante, se autoproclamando "Dom Quixote de la Mancha". Acompanhado de seu fiel escudeiro Sancho Pança, Dom Quixote sai em busca de atos de valentia, tendo em vista também conquistar sua amada Dulcinéia.

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23/07/2023

Publicado em 23.7.23 por

Recortes precisos da existência

Antes de tudo, é preciso frisar que os contos desta antologia foram cuidadosamente selecionados por Boris Schnaiderman, um dos grandes nomes da tradução russa no Brasil, e que esta coletânea já havia sido lançada por outras editoras anteriormente, no entanto, a edição da 34 traz uma revisão completa feita por Schnaiderman no final dos anos 90. Não se trata em si de uma seleção dos "melhores contos", mas de um apanhado que abrange várias fases do autor, entre os anos de 1883 a 1899. Visto isso, prossigamos...

Tchekhov é um dos principais representantes do realismo russo e escrevia sua prosa com uma elegância e fascínio admiráveis. Sua maestria ímpar aborda com rara precisão as nuances das emoções e comportamentos do ser humano, situando facilmente o leitor dentro da história em poucas linhas. Cada conto apresenta uma visão perspicaz e penetrante da vida na Rússia do final do século XIX e os personagens muitas vezes são retratados lutando contra as adversidades e as frustrações da vida. Há aqui uma variedade de temas sendo tratados de forma cirúrgica por Tchekhov, desde questões mais leves e inocentes até situações cínicas e sombrias.

Apesar de ter amado a leitura, senti falta do meu conto preferido do autor nessa coletânea ("A Aposta"), mas isso é o de menos. Tchekhov é genial e pretendo ler e adquirir outras obras dele na medida do possível.

Destaques:

Angústia
Inimigos 
Ventoinha
Bilhete premiado 
A dama do cachorrinho 

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08/07/2023

Publicado em 8.7.23 por

Sofrimento e persistência no sertão nordestino

"Vidas Secas" é certamente um dos clássicos brasileiros mais comentados e conhecidos da nossa literatura. Até mesmo quem nunca leu o livro, já deve ter visto alguma referência a ele na escola ou na TV. Obviamente, não é a toa que essa obra é tão difundida e por isso vemos tantos ecos dela espalhados por aí.

Nessa comovente história, somos apresentados a uma família de retirantes composta por Fabiano, Sinhá Vitória, seus dois filhos e a cachorra Baleia, cujas vidas são marcadas pela miséria e a constante busca por dias melhores no árido sertão nordestino. Cada capítulo expõe uma série de dificuldades e reflexões que nos fazem participantes das agruras desse pequeno e desolado grupo.

A escrita de Graciliano é condensada e objetiva, reproduzindo com fidelidade toda aridez do ambiente descrito, criando assim um reflexo da própria condição emocional dos personagens. Uma característica interessante que vale ressaltar nisso tudo é a narrativa usada em terceira pessoa, a qual vai alternando entre os pontos de vista dos diferentes membros da família, permitindo ao leitor uma imersão profunda em suas vivências e sentimentos.

Sem sombra de dúvidas, a sofrida saga de Fabiano e sua família é algo muito próximo da nossa realidade e escancara as mazelas sociais que ainda nos afligem em pleno século XXI, tais como a exploração, indiferença das autoridades e a falta de empatia com os mais pobres. Quanto à seca, ela ainda continua hoje em dia, não apenas de forma literal, mas também implacável no coração de muitas pessoas. 

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01/07/2023

Publicado em 1.7.23 por

Livros adquiridos (1° sem. 2023)

Conforme havia falado no fim do ano passado, dei um tempo na compra de livros e passei a investir nas trocas feitas no Skoob (as quais renderam ótimos títulos). No entanto, vez ou outra, apareceram promoções interessantes de alguns livros que estavam na lista de desejados há tempos e não pude deixar passar a oportunidade, até porque alguns deles já estavam perto de esgotar ou eram títulos que dificilmente cairiam de preço. Sendo assim, o risco valeu a pena e consegui diversas obras memoráveis que irei citar nesse post.

O Silêncio (Shusaku Endo)

Esse é um romance histórico que se passa no Japão do século XVII, durante a perseguição que houve aos missionários católicos. Na trama, o padre jesuíta português Sebastião Rodrigues sai em busca de seu mentor desaparecido, mas acaba sendo capturado pelas autoridades japonesas e enfrenta um julgamento brutal que o leva a questionar sua própria fé. 

Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias (Flannery O'Connor)

Antologia de contos de uma das mais importantes escritoras americanas do século XX. As histórias exploram temas como o pecado, a graça divina e a natureza humana, sendo conhecidas por seu estilo marcante e pelo uso do humor negro e da violência.

Paraíso reconquistado (John Milton)

Poema épico que é a continuação do famoso "Paraíso Perdido", o qual conta a história da queda de Adão e Eva no Jardim do Éden. Nessa sequência, Milton retrata a tentação de Jesus Cristo no deserto pelo diabo e sua vitória sobre ele. A obra explora questões fundamentais da natureza humana, do livre-arbítrio e da relação entre o divino e o humano.

O Mestre e a Margarida (Mikhail Bulgákov)

Romance satírico que se passa na Moscou soviética dos anos 1930. A história acompanha a visita do Diabo e seu séquito, os quais desencadeiam uma série de eventos estranhos que irão trazer caos e confusão por onde passam. Paralelamente, conhecemos o Mestre, um escritor desprezado em busca de redenção, e sua relação com a enigmática Margarida. 

Corações cicatrizados (Max Blecher)

Essa narrativa semiautobiográfica conta a trajetória de um jovem chamado Emanuel, o qual enfrenta uma doença incurável que afeta sua coluna vertebral. Enquanto luta contra as limitações físicas impostas por sua condição, ele desenvolve uma perspectiva intensamente filosófica e poética a respeito da existência e do sofrimento.

Arquipélago Gulag (Alexander Soljenítsin)

Nessa obra monumental, Soljenítsin retrata o sistema de campos de trabalhos forçados e prisões da União Soviética, conhecido como Gulag. Através de uma combinação de narrativa pessoal, relatos de testemunhas e documentos históricos, o autor revela a brutalidade e a injustiça desse sistema repressivo, que foi utilizado pelo governo soviético para suprimir dissidentes políticos e supostos inimigos do Estado.

Crônica da casa assassinada (Lúcio Cardoso)

Narra a decadência moral e psicológica da poderosa família Meneses em uma pequena comunidade de Minas Gerais. Segredos obscuros, paixões proibidas e uma atmosfera de mistério permeiam a trama, enquanto a casa da família se torna testemunha e participante das tragédias que se desenrolam entre suas paredes. Uma obra intrigante que mergulha na psique humana e nas relações familiares disfuncionais.

Os Buddenbrook (Thomas Mann)

Retrata a ascensão e queda de uma proeminente família de comerciantes ao longo de várias gerações, explorando os conflitos entre tradição e modernidade, assim como as tensões entre as expectativas sociais e as aspirações individuais. É um retrato magistral da sociedade burguesa alemã do século XIX e uma reflexão sobre a fragilidade humana.

Os irmãos Karamazov (Dostoiévski)

Considerado um dos maiores romances já escritos, esse livro conta a história da família Karamazov, composta por três irmãos: Dmitri, Ivan e Alyosha. O enredo principal trata do julgamento de Dmitri, que é acusado de assassinar o próprio pai, Fiódor Karamazov, um homem cruel e egoísta. O julgamento revela as tensões e conflitos que permeiam a relação entre os irmãos, bem como as suas diferentes visões de mundo.

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18/06/2023

Publicado em 18.6.23 por

Nos limites da realidade

Na época em que comprei essa antologia do Hoffmann fui movido apenas pela mera curiosidade trazida pela sinopse do livro. Não por pouco, fui depois surpreendido do começo ao fim com a narrativa do autor alemão, o qual foi um dos pioneiros na escrita de histórias de horror e fantasia.

Seus contos são marcados por elementos sobrenaturais e trazem uma atmosfera gótica bem característica. São histórias quem viajam entre a linha do real e o imaginário, o bem e o mal, o normal e o estranho, criando um senso de ambiguidade recheado de mistério. Há também temas psicológicos sendo abordados com boas doses de ironia e humor negro e o autor ainda brinca com as expectativas do leitor, subvertendo as convenções literárias de sua época ao apresentar reviravoltas inesperadas na trama. 

Outro ponto que vale lembrar é a mistura que Hoffmann faz com os gêneros literários. Sua obra não se enquadra facilmente em uma única categoria, pois combina uma série de elementos que vão desde o romance gótico e o horror (como falei anteriormente) até os contos de fadas. 

Esse é um autor sensacional e espero que futuramente ele seja mais reconhecido aqui no Brasil mediante novas traduções e iniciativas culturais que despertem mais interesse pela literatura alemã.

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10/06/2023

Publicado em 10.6.23 por

Religare

Mergulhe sem medo. Quando a necessidade da alma urgir, não tenha receio de se entregar à fonte da sua existência. O Imensurável, ainda que ignorado por muitos, continua sendo a resposta aos anseios mais emergentes do coração humano. Ele não pode ser sondado mediante nossas baixas perspectivas mortais, mas oferece o que há de melhor para nos consolar das agruras dessa jornada. Ainda que estejas sem forças, encontrarás vigor. Se tiveres fome, serás farto. Se tiveres sede, serás saciado. A vida nunca será vazia enquanto for ligada ao Princípio Eterno de todas as coisas.

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03/06/2023

Publicado em 3.6.23 por

A fúria do mar versus a intrepidez humana

Ambientado na ilha de Guernsey, no Canal da Mancha, esse romance conta a história de Gilliatt, um homem simples e dotado de muitas habilidades, mas que acaba ganhando uma fama agourenta no povoado local. Ele vive sozinho numa velha casa que era conhecida por ser "mal-assombrada", o que só vem a piorar a repulsa que a população tem contra ele.

Mesmo em seu isolamento, Gilliatt acaba se apaixonando por uma jovem chamada Déruchette e para provar seu amor, ele decide enfrentar uma ferrenha luta contra a selvageria do mar e seus perigos. A partir daí, vemos como a determinação e resiliência de Gilliatt estão à altura de um herói modelo capaz de enfrentar as mais duras provações. Seu sofrimento se transforma em combustível para superar os duros obstáculos da sua difícil missão de resgate ao motor da embarcação Durande, desafio este que irá testá-lo até suas últimas forças. 

Em suma, esse é o grande foco da história, mas outro ponto que fica bastante evidente em todo livro é a celebração à natureza da ilha de Guernsey, que o autor enaltece mediante incontáveis descrições. A propósito, uma coisa que eu já havia percebido em "Os Miseráveis" se repete aqui: Victor Hugo chega a ser prolixo em vários momentos, mas aproveita as digressões para explorar ao máximo as características dos cenários e sua parte histórica. Dessa forma, demorou um pouco até que a trama se desenrolasse e finalmente conseguisse prender minha atenção.

Confesso que em termos de empatia e identificação com os personagens não consegui me conectar com Déruchette e o cura Ebenezer. Achei que lhes faltou mais desenvolvimento e ainda que as justificativas a favor deles fossem críveis, o autor poderia tê-los explorado bem melhor. Já com Gilliatt, existe um aprofundamento significativo, até porque ele é o protagonista do romance, mas isso não impediria que houvesse um pouco mais de foco nos outros personagens também.

No final de tudo, mesmo que eu tenha ficado inconformado com o desfecho, não posso negar que essa história mostra o quão é importante ter força de vontade e coragem para enfrentar os problemas da vida, ainda que nem sempre tenhamos sucesso em tudo aquilo que desejamos. O ideal de uma realização não se limita apenas à conquista da vitória, mas na capacidade de resistir firmemente durante a jornada.


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27/05/2023

Publicado em 27.5.23 por

Trocas feitas no Skoob (parte 2)

Nossa segunda temporada de trocas também foi muito proveitosa. Como sempre, tive que ficar atento ao sistema Plus pois a frequência de solicitações por alguns títulos mais desejados é bastante alta. 

A seguir, fiquem com as sinopses de cada livro:

• A volta de Sherlock Holmes (Arthur Conan Doyle)

Com sua habilidade de dedução impressionante, o senso de humor ácido e a personalidade excêntrica, Sherlock Holmes é um dos personagens mais icônicos da literatura policial. Esse livro marca o retorno do famoso detetive após sua aparente morte em "O Problema Final", que havia sido publicado em 1893.

• São Bernardo (Graciliano Ramos)

Conta a história de Paulo Honório, um homem rude e ambicioso que começa como um pobre trabalhador rural e se torna um rico fazendeiro em uma região árida do Nordeste brasileiro. O livro também aborda questões sociais e políticas da época em que foi escrito, como a desigualdade econômica, a exploração dos trabalhadores rurais e a luta pela reforma agrária

• Paris é uma festa (Ernest Hemingway)

Se trata de uma obra autobiográfica que retrata a vida de Hemingway na Paris dos anos 20, quando ele era um jovem escritor em busca de reconhecimento. O livro é composto de uma série de relatos e memórias sobre lugares e pessoas que o autor conheceu durante seus anos em Paris, incluindo outros escritores famosos da época, como Gertrude Stein e F. Scott Fitzgerald.

• A estrada (Cormac McCarthy)

Narra a jornada de um pai e um filho que viajam por uma paisagem desolada e perigosa, em uma terra devastada por um evento cataclísmico não especificado. A história se concentra na luta diária da dupla para sobreviver em um mundo sem lei e nem esperança, enfrentando perigos como saqueadores, canibais e a escassez de alimentos e recursos.

• O coração é um caçador solitário (Carson McCullers)

Essa história se passa em uma pequena cidade sulista dos EUA onde vivem vários personagens à procura de compreensão num mundo solitário e alienante. O protagonista é John Singer, um surdo que se torna amigo e confidente de quatro pessoas bastante diferentes entre si. Cada um desses personagens busca em Singer uma espécie de consolo e entendimento, mas eles não conseguem enxergar que ele também é um indivíduo vulnerável e sozinho.

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20/05/2023

Publicado em 20.5.23 por

O subsolo de nosso próprio ser

Confesso que li "Memórias do Subsolo" com certa dificuldade, não apenas devido a escrita meio que "truncada" de Dostoiévski, mas também pela temática da obra. O livro é dividido em duas partes distintas e possui um tom confessional narrado por um personagem nem um pouco simpático ("O homem do subsolo"), o qual é uma pessoa amargurada com a sociedade e que se autodeclara como alguém de índole detestável. No decorrer de seu monólogo, ele vai dando diversas alfinetadas e destrincha uma série de questões a respeito da natureza humana.

Vale lembrar que o subsolo nesta obra seria tanto literal quanto simbólico, uma vez que o narrador mora no subterrâneo e seu discurso, plenamente subjetivo, se aprofunda também no âmago da alma. No tocante a isso, Dostoiévski tem uma capacidade ímpar de examinar a psiquê humana como se a estivesse expondo através de uma lupa e assim ele vai fundo até cutucar a ferida onde exatamente mais dói.

Por muitas vezes o protagonista me irritou, mas depois fui me acostumando com ele e analisando pausadamente cada uma de suas objeções. Por mais que não concordemos com boa parte daquilo que o mesmo fala, somos levados a observar as coisas sob a perspectiva dele e até concordar em alguns pontos.

Essa é uma obra com forte teor filosófico e existencialista, norteada por questionamentos pertinentes e um personagem que, em toda sua complexidade, facilmente representa as tensões e ansiedades do homem moderno.

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06/05/2023

Publicado em 6.5.23 por

Uma viagem de autodescoberta na Índia

Noturno Indiano é uma obra que nos transporta para os fascinantes cenários da Índia através da viagem de um homem em busca de um antigo amigo, chamado Xavier, o qual ele não via há muito tempo. Ao longo de sua peregrinação, ele se depara com diversas pessoas que o ajudam a enxergar uma ampla gama de interpretações sobre a vida e a espiritualidade e assim ele vai seguindo as pistas que vão aparecendo pelo caminho.

Aqui tenho de ressaltar que a narrativa poética e fluida de Tabucchi cria também um clima onírico repleto de incertezas. O autor aproveita bem essa ambientação para abordar temas como a busca pela verdade, a solidão e a complexidade das relações humanas, explorando tudo isso de forma profunda e reflexiva em paralelo com questionamentos existenciais.

Não obstante, no final das contas, a procura do narrador pelo seu amigo acaba se revelando em algo muito maior do que ele esperava, pois após viver uma série de experiências que o levam a indagar sua identidade e seus valores, ele encerra uma jornada de autoconhecimento que o trouxe diante daquilo que realmente precisava ser encontrado: o seu próprio eu.

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15/04/2023

Publicado em 15.4.23 por

Retornando aos CDs

Recentemente, me deu uma vontade enorme de voltar a usar CDs para ouvir músicas. A nostalgia bateu forte, confesso, mas não foi apenas por isso que me decidi a retornar aos velhos moldes de audição. Desde que o streaming surgiu, sempre me senti um tanto quanto "deslocado" dessa alternativa mais cômoda e prática. Obviamente, não estou condenando o uso desse recurso (inclusive, ainda uso bastante Spotify e YouTube), mas não há como negar que minha experiência com a mídia física sempre foi bem mais intensa. 

Desde criança, quanto tive meu primeiro contato com o vinil, achava espetacular todo aquele processo de pegar o disco, colocá-lo pra tocar e olhar a capa/encarte do mesmo. Cresci em meio a centenas de discos e fitas K7 de meus pais, tios e avós, além de participar inúmeras vezes daquele antigo costume de sentar diante da vitrola/microsystem e apreciar a escuta de álbuns completos sem ficar pulando faixas. Tanta afinidade com a música naturalmente me levou para o lado mais técnico da coisa, me dando interesse para aprender saxofone e violão, ainda que de forma amadora, mas isso já é uma outra história.

Pois bem, o tempo foi passando e a tecnologia evoluindo. As mídias físicas foram ficando obsoletas e quase todo mundo foi se desfazendo de suas discotecas. Com o fim da era do CD, eu ainda mantive meu acervo pessoal somente como lembrança de um tempo esquecido. Já tinha todas aquelas músicas em MP3 e isso pra mim bastava. No entanto, após anos dessa mudança, eis que agora mudo de ideia.

Me lembro de certa vez em que o ator Keanu Reeves disse numa entrevista que estamos desperdiçando muitas coisas na vida, e uma delas é o sentido do tato. Através da tecnologia digital, temos vantagens de espaço e portabilidade, mas por outro lado, perdemos a experiência única de "sentir" o produto em nossas mãos (idem para os livros). Talvez, isso não faça diferença alguma para a maioria das pessoas, mas pra mim, tal afirmação do ator de Matrix resumiu tudo aquilo que eu sentia a respeito desse tema.

Foi justamente esse pensamento que me fez recordar das vantagens que os CDs possuem em relação a outras opções de áudio, como streaming ou downloads digitais, e são esses prós que faço questão de citar aqui, mesmo que eles sejam bastante óbvios para quem já conhece o assunto. 

Qualidade de áudio: CDs oferecem qualidade de som superior à maioria dos arquivos de áudio digitais, especialmente quando comparados com arquivos comprimidos, como o MP3. Isso porque o CD usa um formato de áudio sem perdas, o que significa que a qualidade do som não é comprometida para economizar espaço em disco.

Propriedade física: Um CD é um objeto tangível que você pode manter, tocar e exibir em sua coleção. Isso pode ter um valor sentimental para algumas pessoas, especialmente para aqueles que cresceram colecionando CDs. Além do mais, os encartes incluem conteúdo exclusivo que muitas vezes não são encontrados na internet, como: ficha técnica, letras de música, fotos e todo conceito artístico idealizado para o álbum.

Dados offline: Com um CD, você não precisa de acesso à Internet ou de uma conexão estável para ouvir música. Isso é especialmente útil se você está em uma área com conexão limitada ou instável. 

Compatibilidade: CDs são compatíveis com a maioria dos reprodutores de CD e DVD, o que significa que você pode ouvi-los em diferentes dispositivos e sistemas de som (muitos ainda estão disponíveis no mercado). Sem contar que você também pode ripar o CD, convertendo as faixas em um arquivo digital se quiser.

Preço: CDs físicos são geralmente mais baratos do que as versões digitais, especialmente se você comprar CDs usados (ainda que não seja tão fácil encontrar certos títulos por aí). O único "porém" seria o preço do frete no tocante às compras online, mas se você mora numa cidade onde há lojas especializadas no ramo, certamente irá encontrar boas opções.

Disponibilidade: Embora a maioria das músicas estejam disponíveis em formato digital, alguns títulos raros ou de artistas independentes podem não estar disponíveis na internet. Nesses casos, o CD pode ser a única opção para conseguir a música que você deseja.

Por último, eu seria injusto se não falasse também das desvantagens que os CDs possuem, tais como: o espaço ocupado em casa, riscos de danos físicos e limitação de armazenamento de músicas por disco. Outro ponto desfavorável é que o processo de compra e reprodução de CDs é menos conveniente do que o de serviços de streaming (que estão a um "clique" de distância), mas na minha opinião, vai de cada um a preferência em qual tipo de meio utilizar, pois tudo pode ser facilmente equilibrado, unindo sempre o útil ao agradável. 

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08/04/2023

Publicado em 8.4.23 por

Um futuro diferente? Talvez, nem tanto...

Fiquei surpreso ao ver como "The Silver Eggheads" é ironicamente profético para os tempos em que estamos vivendo, onde a inteligência artificial alcançou patamares admiráveis, a exemplo do ChatGTP e outros modelos similares. No momento em que publico esta resenha, já existem diversos autores e especialistas preocupados com o impacto dessa tecnologia de IA na autoria de livros, questão essa que teve um resultado nada amistoso na história de Leiber, a qual iremos falar aqui. 

Num futuro próximo, os escritores são considerados uma espécie excêntrica de celebridade e elaboram seus livros com base em máquinas chamadas "fábricas de palavras" que, na verdade, fazem todo o trabalho no lugar dos supostos autores. Nessa época, o próprio conceito de escrita autoral já teria se perdido há muito tempo e os livros se tornaram apenas produtos de entretenimento barato regados a uma tecnologia apelativa cheia de experiências sinestésicas. Até aí, a humanidade também já teria vencido todos os tipos de frustrações e emoções negativas mediante o uso de substâncias medicamentosas e tratamentos especiais que sanariam até mesmo problemas psiquiátricos. 

Justamente em meio a esse contexto de comodismo e automação criativa, surge uma revolta por parte dos escritores, que não aceitam mais serem meros fantoches daquele sistema e começam a destruir as máquinas editoras. O problema, a partir de então, seria como desenvolver a capacidade de escrita, uma vez que ninguém fazia a mínima ideia de como criar um texto. Para solucionar isso, são convocados grandes escritores do passado, os quais estariam apenas com seus cérebros conservados dentro de um aparelho oval prateado. 

Com esse plot inovador pra época, Leiber soube conduzir bem a sua narrativa, ainda que os diálogos não tenham tanta profundidade e sua prosa não seja tão hábil quanto de outros escritores do gênero sci-fi. O autor é provocativo ao debater sobre questões éticas e cultura de massa e consumo (um dos principais temas do enredo), além de usar muito da ironia. No final das contas, este é um livro bastante despretensioso, mas que não deixa também de ter seus momentos "sérios".

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01/04/2023

Publicado em 1.4.23 por

Sobre livros com o selo de venda proibida

Quem é acostumado a comprar livros usados em sebos com certeza já deve ter se deparado com algum exemplar contendo o famoso selo do Ministério da Educação juntamente com o aviso de "venda proibida". Por algumas vezes, caí na lábia de vendedores e "troquei gato por lebre" ao adquirir livros bem baratos que traziam o bendito selo. Como na época eu não tinha muita experiência, não pedia fotos ou mais informações a respeito dos exemplares e acabava ignorando uma possível devolução do produto por mera preguiça de correr atrás do prejuízo. 

No entanto, a fim de saber mais sobre a procedência de livros assim, procurei depois me informar sobre o assunto. Imaginava que tal selo indicasse apenas que a obra pertencesse a alguma biblioteca pública, mas não sabia que também poderia ter sido doada pra alunos do Ensino Fundamental e Médio. De qualquer forma, descobri que a política do Estante Virtual reprovava a venda de exemplares desse tipo e daí em diante passei a prestar mais atenção nos anúncios e sempre perguntar aos livreiros sobre os detalhes das edições.

Recordando dessas experiências, lembrei ainda de quando minha mãe, que também é professora, me deu três exemplares "selados", mas desta vez, soube que os livros estavam sendo doados na escola onde ela trabalha. Nesse caso, não vi objeção nenhuma que me fizesse rejeitar aqueles livros, já que sabia qual era a procedência legal dos mesmos (lembrando que muitos exemplares de divulgação também são direcionados ao corpo docente). 

Enfim, creio que esse é um tema que depende muito das circunstâncias para ser avaliado adequadamente, sendo necessário levarmos sempre em conta a origem do livro. Ter cuidado nunca é demais nessas horas.

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18/03/2023

Publicado em 18.3.23 por

O louco mais sensato da literatura

Antigamente eu pensava que Dom Quixote seria apenas uma sátira às novelas de cavalaria e nada mais, porém descobri nessa leitura elementos que se sobressaem acima disso. Cervantes estava à frente de seu tempo e não há como duvidar de sua maestria nesta obra, a qual já trabalhava elementos que mais tarde fariam parte do romance moderno. Os diálogos do cavaleiro andante com seu escudeiro abordam questões universais que permeiam a humanidade há séculos e não é de se admirar que mesmo após mais de 400 anos, Dom Quixote ainda seja uma obra tão fundamental no cânone literário. 

Tanto o contexto da história como os personagens cativam pelo tom tragicômico e pelas diversas reviravoltas. Em sua loucura, Quixote inventa adversários e situações imaginárias, sempre relacionadas às aventuras de cavalaria. Sancho, mesmo vendo o delírio de seu amo, acaba sendo conivente com tudo e por fim se mete nas mais constrangedoras confusões juntamente com seu mestre. Apesar da notória falta de juízo de Quixote, vemos que suas motivações são nobres e muitas vezes até ingênuas. Ao moldar a realidade à sua própria maneira de enxergar o mundo, o Cavaleiro da Triste Figura vive um ideal que se distancia da letárgica existência que antes tinha. Cada episódio de sua jornada se torna um acontecimento ímpar na "comprovação de seu valoroso ofício", onde tudo pode acontecer sob os argumentos mais absurdos possíveis.

Uma das coisas que mais me surpreenderam nesse romance foram as histórias paralelas (que eu nem sabia que existiam), como as de Cardênio, Doroteia e a do capitão Viedma com a moura Zoraida. Tais narrativas poderiam facilmente funcionar como contos independentes em qualquer antologia, mas na saga de Quixote, elas se entrelaçam com a sina do cavaleiro andante, enriquecendo sobremaneira os capítulos da trama.

Simplesmente esse foi um dos melhores romances que já tive o prazer de ler e não tenho receio em afirmar que O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha é uma obra atemporal que permanecerá sendo lembrada enquanto existir pessoas que prezem pela boa literatura. 

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