Antes de tudo, devo ressaltar que a dinâmica dessa história é um pouco diferente daquilo que estamos acostumados a ver, já que a mesma se trata de um romance do século XVII. Justamente por isso, A Princesa de Clèves deve ser lido analisando-se também o contexto histórico-cultural do período em que foi escrito.
Logo no começo, somos apresentados a um quadro de intrigas, ciúmes e traições da corte francesa, sempre envolta em terríveis jogos de interesse. Em certos momentos tive dificuldade em me ater à narrativa devido às idas e voltas que a autora faz constantemente com histórias paralelas (alguns episódios são jogados em meio a uma mistura de personagens que podem facilmente confundir o leitor). Somente na terceira parte é que o romance segue pra uma linha mais concisa e fluida, deixando tudo mais claro, e logo vemos o porquê desse livro ser considerado um dos precursores do romance psicológico ao acompanharmos de perto os pensamentos da senhora de Clèves e do duque de Nemours em suas desventuras amorosas. A propósito, Albert Camus certa vez disse que nessa obra "há uma desconfiança constante em relação ao amor", e é assim que realmente se sucede por parte dos principais personagens.
O enredo realista que aborda a luta da heroína contra sentimentos adúlteros é completamente diferente para os padrões de sua época. Madame de La Fayette vai ainda mais além e cria um drama sem nenhum direito a finais felizes ou momentos açucarados. O que temos são conflitos pessoais que pululam a cada instante até a chegada de um anticlímax nada acalentador.
A senhora de Clèves, mesmo sofrendo com as consequências de seu destino, se torna uma representação indômita da luta contra os desejos mais confusos do coração. Ela decide subsistir de forma implacável perante as contrariedades da vida e encontra nisso um propósito honrado que deve ser seguido a todo custo, ainda que tal escolha possa lhe omitir a felicidade.
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