Image source: Serguei Adamovitch
No decorrer da minha leitura desse segundo volume, coincidentemente, se deu a invasão militar da Ucrânia pela Rússia. Alguns fatores nesse conflito despertaram a minha atenção quanto ao contexto histórico-cultural desses dois países e me situaram mais ainda na trama de Guerra & Paz através do paralelo que envolve o horror e a destruição causados pela guerra. Ainda que essas sejam histórias ocorridas em tempos diferentes, ambas mostram aspectos incisivos da crueldade humana no tocante aos conflitos bélicos entre nações.
Apesar do grande tempo despendido nessa leitura, o retorno que recebi foi altamente gratificante e me sinto muito satisfeito com essa experiência. Tolstói mais uma vez me surpreendeu.
Assim como fiz na postagem anterior sobre o andamento da leitura, citarei o histórico de cada parte dos tomos desse volume também (contendo SPOILERS).
Tomo 3
Primeira parte
Tolstói inicia esse tomo com uma descrição histórica dos vários motivos que acarretaram as guerras napoleônicas. Voltando à trama, Napoleão prepara seu exército para atacar enquanto o Imperador Alexandre e as tropas russas estão acomodados e sem muitas expectativas de um ataque iminente. Alexandre envia uma carta a Napoleão como última tentativa de conciliação, mas o Imperador francês não aceita as exigências e inicia o ataque. Sentindo-se ultrajado pela atitude de Anatole para com Natacha, Andrei volta para o exército e pensa em desafiá-lo para um duelo, mas não o encontra entre as tropas russas na Turquia e retorna. No campo de batalha, Nikolai Rostóv lidera uma investida bem sucedida e é condecorado, mas uma nova inquietação a respeito do horror da guerra o perturba. Em Moscou, Natacha continua em seu auto-isolamento após ter adoecido em meio ao remorso de sua traição a Andrei. Aos poucos, ela vai tendo uma gradativa melhora e passa a encontrar consolo nas visitas de Pierre à sua casa. Pierre passa a ficar constrangido pois percebe que começa a nutrir um sentimento diferente por Natacha e que ela também discretamente demonstra um afeto mais profundo por ele. O Imperador Alexandre convoca toda nobreza e a classe dos comerciantes para lhes solicitar contribuições de materiais para a guerra e homens para o exército.
Segunda parte
Montes Calvos, a propriedade do príncipe Bolkónsk, se encontra em perigo devido a proximidade da guerra na cidade vizinha de Smolensk. O príncipe Andrei consegue avisar sua família, esperando que todos fujam para Moscou, no entanto, seu pai decide ficar e organizar uma milícia composta de servos e camponeses a fim de resistir ao ataque. Inesperadamente, ele logo sofre um ataque que o deixa mortalmente ferido. De luto pelo pai e impedida de sair da aldeia pelos mujiques, a Mária se encontra desolada em Bogutchárovo quando recebe a inesperada visita de Nikolai, que chega em busca de feno sem saber que alí se encontrava a princesa. Ele então a ajuda impondo sua autoridade sobre os camponeses, garantindo assim a partida de Mária, que acaba se enamorando de Nikolai. Enquanto isso, o general Kutúzov (que havia sido designado para o cargo de comandante-em-chefe) recebe Andrei e o consola por decorrência da morte de seu pai. Em Moscou, Pierre finalmente decide entrar para o exército motivado por uma superstição particular sobre seu destino na guerra. Saindo então em busca das tropas russas, ele alcança o regimento em Górki e de lá chega às linhas de combate em Borodinó, onde encontra Andrei, que o recebe com indiferença. Dado início à batalha, Pierre sobe a colina para observar tudo de perto, porém o ataque se torna acirrado e ele acaba fugindo para não ser morto. Durante o ponto alto do conflito, Andrei é atingido por uma granada e levado ferido para uma enfermaria onde, para sua grande surpresa, acaba sendo colocado ao lado de Anatole, que tem sua perna amputada em meio a muito sofrimento. Encerrada a luta em Borodinó, Napoleão, com seu orgulho ferido, não admite a forte resistência dos russos, os quais se sobressaíram mesmo em desvantagem.
Terceira parte
Os generais russos se reúnem no conselho de Fili para decidirem se as tropas restantes defenderiam Moscou da invasão ou recuariam. Apesar das opiniões controversas, Kutúzov decide por retroceder, já que o exército ainda não estava em condições de enfrentar um novo ataque. Paralelo a esses acontecimentos, Hélène arma estratégias para conseguir se separar de Pierre e casar-se com um dos dois pretendentes já escolhidos por ela. Pierre volta à Moscou logo após a batalha e tem uma conversa com o conde Rostoptchin, que é o governador-geral da cidade. Rostoptchin então o acusa de manter ligações com supostos traidores e o deporta de Moscou. Já farto de tudo aquilo e após ler a carta de Hélène sobre o pedido de divórcio, Pierre foge sem deixar pistas de seu paradeiro. Após muita insistência, Pétia (o caçula dos Rostóv) ingressa no regimento dos cossacos a contragosto de sua mãe. Em meio a toda confusão que aflige a capital, os Rostóv se preparam para ir embora e cedem sua casa como abrigo para vários feridos recém chegados. Entre eles, se encontra o príncipe Andrei em péssimo estado, o qual acaba partindo junto com todos após o conde Rostóv ceder suas carroças para transporte dos feridos. Ao chegar em Moscou, Napoleão se frusta por achar a cidade praticamente abandonada. Os soldados franceses logo invadem a cidade à procura de bens para pilhar e de casas para abrigo. Pierre, que estava escondido na casa de seu falecido benfeitor, o maçon Ióssif Alekséievitch, acaba recebendo um oficial francês com alguns de seus subordinados. Durante essa indesejada visita, o velho irmão louco de Alekséievitch atira contra o capitão Ramballe, mas é impedido bem na hora por Pierre. A partir daí, o oficial se considera em dívida com ele e tenta cultivar sua amizade. Sônia conta à sua irmã sobre o Príncipe Andrei estar na mesma caravana que eles e Natacha acaba saindo escondida à noite para ver seu ex-noivo. Ainda em delicado estado de saúde, Andrei consegue reconhecer nela seu antigo amor e ambos se reconciliam alí mesmo. Enquanto isso, um incêndio sem precedentes se alastra pela cidade e Pierre salva uma garotinha de uma casa em chamas e logo em seguida é preso por defender uma família de armênios que estava sendo saqueada por soldados franceses.
Tomo 4
Primeira parte
Após ficar supostamente depressiva devido sua polêmica situação quanto a um novo matrimônio, Hélène adoece e morre de uma overdose de remédios. O Imperador Alexandre recebe a notícia da tomada de Moscou, mas se mostra determinado a enfrentar Napoleão até às últimas consequências. Nikolai está em Voróniej e lá encontra sua tia e a governadora da cidade, a qual tenta chegar convencê-lo a se casar com a princesa Mária. O jovem Rostóv percebe então que seu interesse pela princesa aumenta e logo se vê perante uma difícil escolha, uma vez que o mesmo ainda está comprometido com Sônia. Por coincidência, nesse mesmo período, Nikolai recebe uma carta de seu antigo amor, liberando ele de seu compromisso. Mal sabe ele que sua mãe havia antes pressionado Sônia para que ela desistisse desse relacionamento. Pierre é interrogado pelos franceses, mas não revela seu nome, sendo considerado como um incendiário. O general Davout ordena que Pierre seja levado juntamente com outros prisioneiros para uma execução pública, porém poupa sua vida no último minuto. Mária fica sabendo que seu irmão está com os Rostóv em Iaroslavl e se apressa para alcançá-los. Ao chegar lá, encontra Andrei desanimado e sem esperanças, ainda bastante mal devido seu ferimento de guerra. Apesar de todos os cuidados médicos, o príncipe não resiste e acaba morrendo.
Segunda parte
Os franceses perdem de vista o exército russo, o qual havia se deslocado para o sul, ficando em uma posição bem mais favorável para uma nova investida. As tropas russas fazem um ataque surpresa aos franceses em Tarútino e conquistam uma razoável vitória. Enquanto isso, Napoleão tenta colocar ordem em Moscou, porém tudo já está fora de controle. Pierre, que se encontrava preso há um mês no barracão dos soldados, ganha simpatia de todos e muda sua concepção sobre a vida após passar por tantas adversidades. O exército francês, juntamente com os prisioneiros, partem de Moscou e o comandante Kutúzov recebe essa notícia em primeira mão da parte de um mensageiro russo. O velho e experiente comandante decide evitar ataques desnecessários e esperar o momento certo antes de decidir por um novo confronto.
Terceira parte
Pétia se une a Deníssov, que agora comanda um grupo de guerrilheiros. Deníssov, com a ajuda de Dólokhov, planejam uma investida contra um grande comboio francês no meio da estrada. Dólokhov e Pétia entram disfarçados no acampamento francês e tentam colher algumas informações importantes sobre aquele regimento. O ataque é iniciado no dia seguinte logo pela manhã bem cedo e Pétia morre em meio ao tiroteio. Os russos vencem e libertam os prisioneiros, dentre os quais se encontra Pierre. Enquanto isso, o restante do exército francês continua sucumbindo ao cansaço, à fome e ao frio, além de sofrerem constantes ofensivas dos russos pelo caminho.
Quarta parte
Natacha e Mária ainda estão enfrentando o terrível luto pelo falecimento de Andrei quando chega a notícia da morte de Pétia. A comoção se torna geral na casa dos Rostóv e toda família sofre intensamente durante semanas. As tropas russas continuam a perseguir os franceses morimbundos, mas Kutúzov prefere apenas afugentá-los para fora do país, a fim de não correr o risco de ter mais perdas desnecessárias entre os soldados. Chegando em Vilna, Kutúzov, contra a vontade do soberano, retém a maior parte das tropas e lá mesmo permanece por dias. Alexandre I logo chega na cidade e condecora Kutúzov pelos seus últimos esforços na guerra, mas ao mesmo tempo, também se demonstra insatisfeito com as atitudes do velho comandante. O imperador despacha então Kutúzov da liderança e transfere todo poder da regência para ele mesmo. Após sua libertação do cativeiro, Pierre vai para Oriol e lá adoece, ficando em convalescença por três meses, durante os quais começa a viver sob uma perspectiva mais simples e prática.
Voltando para Moscou, Pierre visita a princesa Mária e fica surpreso ao ver Natacha, que estava passando alguns dias na casa da amiga. Superando o clima de tristeza que ainda pairava, as duas convidam Pierre para um jantar e pedem que ele lhes conte sobre suas experiências na guerra. Após esse encontro, reacende no coração do jovem conde o amor velado que ele tinha por Natacha e assim, ele começa a alimentar esperanças de que ela possa aceitar um provável pedido de casamento seu. Enquanto isso, Natacha também desperta o amor por Pierre e revela à Mária seus sentimentos, pedindo conselhos a respeito dessa situação.
Epílogo
Pierre se casa com Natacha e o casal vai morar em São Peterburgo. No mesmo ano, o velho conde Rostóv adoece e morre, deixando uma grande quantidade de dívidas a serem pagas. Nikolai assume então os negócios da família, mas não consegue lidar com tantos credores. Devido à delicadeza do momento, ele se muda juntamente com sua mãe e sua prima Sônia para uma casa menor a fim de cortar gastos, tentando esconder da velha condessa o triste quadro em que se encontram as finanças. A princesa Mária resolve visitar os Rostóv mas encontra Nikolai frio e indiferente e acaba se afastando dele. Nikolai resolve ceder à sugestão de sua mãe e vai visitar a princesa alguns dias depois e ambos conseguem se entender novamente. O jovem Rostóv se casa então com Mária e consegue quitar todas as dívidas usando seus próprios esforços sem depender da fortuna da esposa. O casal vai morar em Montes Calvos e lá Nikolai prospera trabalhando no setor agrícola. Enfim, para concluir a história dos personagens após a guerra, Tolstói relata algumas trivialidades no cotidiano das famílias Rostóv e Bezukhóv, ambas já com filhos e compartilhando uma vida mais simples, longe dos holofotes da alta sociedade russa. Encerrando o epílogo, o autor apresenta sua filosofia sobre a guerra em um breve ensaio onde ele discorre a respeito da força que move os povos em acontecimentos históricos.
Enfim, chegamos ao final desta longa jornada. Em breve, também postarei minhas impressões gerais sobre esse clássico.