20/04/2024

Publicado em 20.4.24 por

Sob o sol vermelho de um futuro incerto

Apesar de ter sido um prolífico autor de ficção-científica, Edmond Hamilton geralmente é mais conhecido por ter escrito "Superman Under the Red Sun", assim como outros trabalhos para a DC Comics entre as décadas de 40 a 60. Já no romance "A última cidade da Terra" (no original, "City at World's End"), o autor nos transporta para um futuro distante, depois que um evento cataclísmico desencadeia uma viagem inesperada para além dos limites do espaço e do tempo.

A narrativa começa com esse estranho fenômeno que subitamente transporta a cidade de Middletown milhões de anos à frente, em uma Terra moribunda e fria. Diante disso, os habitantes da pequena cidade devem enfrentar os desafios de sobreviver em um mundo estranho e hostil enquanto lutam para encontrar ajuda.

Hamilton explora de forma direta as complexidades da condição humana em face da adversidade, retratando o desespero e a esperança que surgem quando se enfrenta difíceis dilemas em uma realidade completamente diferente. São questões relativas ao destino e o papel do indivíduo no universo, indagações essas que nem sempre nos levam a respostas objetivas, mas que mesmo assim nos ajudam a compreender um pouco mais de nós mesmos.

Por fim, é interessante lembrar que esse livro foi escrito seis anos após a catástrofe das bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki, o que explica o caráter de receio e novidade quanto aos efeitos que esse tipo de arma poderia causar caso fosse aprimorada ainda mais. Isso não apenas reflete os temores da era pós-guerra, mas também serve como um lembrete impactante das consequências devastadoras do mau uso da ciência e da tecnologia.

OBS: Alô, editora Aleph! Esse é um livro que merece muito uma edição brasileira! 

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07/04/2024

Publicado em 7.4.24 por

Existe autoria pura?

Foto: fotografierende/Unsplash

Estive pensando certo dia que quase tudo que a cultura televisiva faz hoje é fruto da influência da literatura dos séculos passados. Desde o famoso "caldeirão das bruxas fazendo poções" (cena de Macbeth, de Shakespeare) em desenhos animados até os episódios intrigantes de "Black Mirror" (muito baseados nos contos de Asimov, Bradbury, Silverberg & Cia), vê-se um enorme leque de referências que quase sempre passa despercebido aos telespectadores. Eu poderia enumerar aqui uma lista infindável dessas referências, mas minha intenção no momento é apenas reafirmar o fato de que os livros ainda exercem bastante influência na indústria cinematográfica atual, influência essa que molda a forma como vemos personagens, histórias e cenários que se tornaram ícones da cultura popular.

Sempre costumo dizer aos meus amigos que não existe ideia "100% original" e que quando alguém "cria" qualquer obra, tal pessoa teve que captar inspiração de outros autores, mesmo que alguns conceitos acabem por ser mesclados a fim de se obter um resultado mais distinto. É claro que não estou condenando o fato de se buscar referências pela literatura afora, afinal, ninguém está isento de beber em outras fontes.

A propósito, isso me faz lembrar que Jorge Luis Borges também não acreditava na existência de uma autoria "pura". Para ele, todo texto é construído a partir de um conjunto prévio de influências e referências culturais e históricas. A criação literária é então um processo de intertextualidade, em que o escritor dialoga com obras e tradições anteriores, e que a originalidade está mais relacionada com a maneira como essas influências são combinadas e reconfiguradas do que com uma suposta "genialidade" do autor. Posso reiterar que tal quadro não se aplica somente aos livros, como também (mais ainda) às produções cinematográficas.

É uma pena que boa parte do público não seja ciente disso (e quem dera se todos fossem). Captar referências literárias em qualquer obra é bem mais do que fazer parte de um seleto grupo de "entendidos", é antes mergulhar em um vasto universo repleto de ideias entrelaçadas. Reconhecer isso não apenas enriquece nossa experiência como espectador, mas também destaca a riqueza cultural que permeia tanto a literatura quanto o cinema. 

É justamente quando compreendemos que a criação artística é essa espécie de "colagem de inspirações" é que podemos apreciar ainda mais a habilidade dos criadores em sintetizar diferentes correntes literárias e transformá-las em algo único. A intertextualidade, como Borges argumentava, acaba sendo um diálogo contínuo entre o passado e o presente, e que molda constantemente nossa compreensão do mundo através de diversas perspectivas (lembrei agora do "Cone da Memória" de Bergson, conceito que vi pela primeira vez num vídeo da Tatiana Feltrin a respeito do conto As ruínas circulares do Borges).

Enfim, independentemente do que poderá acontecer nos anos que virão, a literatura continuará firme e forte, inspirando a criação de novas formas de entretenimento e ajudando a traçar os rumos da cultura pop contemporânea, pois a fusão de diferentes conceitos e a reinvenção de temas são elementos essenciais capazes de dar vida a novas narrativas.

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