31/07/2022

Publicado em 31.7.22 por

Metamorfose além das aparências


Estranheza é o que define minha sensação quando li esse livro. Sei que ele pode ter inúmeras interpretações, mas o impacto pra mim permanece o mesmo. Kafka foi um dos autores que mais deu "nó na minha cabeça" e isso não foi de qualquer jeito. A maneira como ele envereda pelas inquietações e conflitos internos do ser humano é algo que chega a ser angustiante na grande maioria das vezes, causando um atípico desconforto em qualquer leitor. 


A Metamorfose possui tantas facetas que a obra continua icônica e significativa até os dias de hoje. Todo intenso desprezo que Greg sofre durante sua triste lida mostra muito mais do que uma mera história fantástica sobre um pobre desafortunado, antes, expõe aquilo que há de mais cruel e pernicioso na humanidade: a nossa própria indiferença para com o próximo.

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27/07/2022

Publicado em 27.7.22 por

Uma observação sobre a tradução de Wuthering Heights

Há certo tempo vi algumas pessoas reclamando daquilo que chamaram de "sotaque" na fala de alguns personagens de O Morro dos Ventos Uivantes nas traduções lançadas pelas editoras L&PM e Martin Claret. No entanto, mal sabem esses leitores que o romance em inglês possui mesmo uma variação​ linguística. Trata-se do dialeto de Yorkshire, que nas traduções de Guilherme da Silva Braga e Solange Pinheiro Carvalho foi adequado para uma forma mais compatível à nossa realidade. 

As antigas traduções de Wuthering Heights feitas aqui no Brasil nunca levaram isso em consideração devido a dificuldade de tradução do dialeto. Particularmente, gosto dessa proposta de transposição porque nos passa uma ideia aproximada da linguagem que Emily Brontë realmente escreveu em tais passagens do romance. Obviamente, não se trata de verter literalmente o texto original para o nosso idioma, mas sim utilizar dos recursos linguísticos presentes na língua original para criar uma representação desta variante no português brasileiro. É claro que isso não é motivo para desprezar o trabalho de outros tradutores. Estamos apenas diante de propostas diferentes e sempre é bom fazer um cotejo de várias traduções da mesma obra.

Por fim, acho interessante compartilhar alguns estudos acadêmicos acerca desse assunto e por isso indico os seguintes trabalhos:

A tradução do socioleto literário: um estudo de Wuthering Heights

Uma análise comparativa do dialeto de Yorkshire presente na obra Wuthering Heights e da sua representação na tradução da mesma obra de 2011

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23/07/2022

Publicado em 23.7.22 por

A maestria de Lygia Fagundes em narrativas curtas


Lygia Fagundes expõe vários arquétipos do comportamento humano nessa excelente antologia de 18 contos, onde temos uma variedade de temas abordando desde simples relatos da vida cotidiana e relacionamentos amorosos até situações macabras e fantásticas.

Há uma subjetividade sutil na maneira como Lygia vai narrando as histórias, o que pode causar certo estranhamento para alguns, mas para quem já está acostumado com o fluxo de consciência, não é nenhum entrave. Outra característica é que seus contos começam sem nenhuma introdução que situe o leitor quanto ao panorama em que vivem os personagens. O cenário vai sendo montando aos poucos através dos diálogos e o desfecho das histórias quase sempre fica em aberto. 

Particularmente, não senti nenhum problema com isso e gostei de quase todos os contos. A autora possuía uma habilidade incrível de criar a atmosfera propícia e ideal para cada narrativa, usando a seu favor as diversas apreensões dos personagens diante de seus conflitos. Esse livro entrou facilmente pra minha lista de favoritos e é digno de futuras releituras.

Destaques:
A caçada 
Natal na barca
Antes do baile verde 
Venha ver o pôr-do-sol


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19/07/2022

Publicado em 19.7.22 por

Brás Cubas e a efemeridade da vida

Definitivamente, Machado de Assis é meu escritor nacional favorito. Seus romances e contos sempre me trouxeram grandes experiências de leitura e satisfação. Nesta obra, ao se utilizar de um "defunto narrador", Machado irá nos apresentar as memórias do personagem Brás Cubas a partir do momento de sua morte, desconstruindo assim a linearidade padrão dos acontecimentos (começo, meio e fim). Acompanhamos então o protagonista em suas desventuras, desde a infância até sua morte, sempre na mesma sina de não concretizar nada que fosse realmente proveitoso para sua vida. 

Durante a narrativa é interessante notar as análises psicológicas e sociais que vão sendo feitas, bem como a ironia mordaz de Brás Cubas ao criticar a classe elitista de seu tempo. Por muitas vezes me encontrei rindo sozinho em várias passagens bastante cômicas e até mesmo desconcertantes. Sendo esta uma obra de caráter realista, o efeito de tais episódios dão um toque mais forte nas exemplificações de cada personagem, uma vez que todos representam a sociedade daquela época em algum aspecto específico.

Finalmente, o legado deixado por Brás Cubas resulta em um conjunto de negativas que refletem todo niilismo do defunto em sua autojustificativa por uma existência medíocre e sem conquistas relevantes. A sagacidade de Machado de Assis nunca fora tão certeira como nesta obra, nos fazendo refletir também sobre o quanto a vida pode ser efêmera e superficial dentro de perspectivas igualmente infrutíferas e vazias.

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15/07/2022

Publicado em 15.7.22 por

Dicas de Contos #5: Especial Sci-Fi

Image source: Elena Lacey (Getty Images)

Nessa postagem, irei fazer cinco indicações de alguns dos meus contos favoritos de Sci-Fi, mais precisamente, de autores do século XX. Muitas dessas obras, inclusive, inspiraram diversas produções contemporâneas do gênero, seja em filmes ou séries. 

Abaixo das descrições de cada conto postei uma capa referente ao volume onde os mesmos podem ser encontrados (por serem narrativas curtas, algumas são até facilmente achadas na internet). 

O Homem Bicentenário (Isaac Asimov)

A maioria das pessoas conhece apenas a adaptação deste conto pelo filme estrelado por Robin Williams. A versão original, apesar de ser mais enxuta, é bem mais profunda, trazendo oportunas reflexões existenciais durante a jornada do robô Andrew em busca de sua humanidade.

Um Som de Trovão (Ray Bradbury)

Esse conto aborda o conceito do paradoxo temporal dentro da famosa teoria do "Efeito Borboleta", nos mostrando as terríveis consequências que ocorreriam caso alterássemos alguma coisa no passado, por mínima que ela fosse.

Pelos Cordões de suas Botas (Robert A. Heinlein)

Essa narrativa também apresenta a questão do paradoxo temporal, porém, sob o fenômeno chamado “arco fechado no tempo”. Viajando por um portal, Bob Wilson vive uma intrigante aventura no futuro que revelará um curioso ciclo de acontecimentos.

Lembramos para você a preço de atacado (Philip K. Dick)

Aqui temos uma história excepcional sobre implantação de memórias. Douglas Quail deseja muito ir à Marte, mas não possui condições financeiras para tal. Ele então recorre à empresa REKORDAR S.A. para ter uma experiência mental simulada e realizar seu sonho. No entanto, algumas lembranças virão à tona, causando sérios problemas e levando Douglas a questionar sua própria realidade.

Os Exógamos (Robert Silverberg)

Trata do início de um relacionamento entre dois jovens de tribos rivais em um planeta desconhecido. De forma bem interessante, o conto coloca em evidência várias questões antropológicas ao confrontar as diferenças culturais entre esses dois povos descendentes dos primeiros homens que colonizaram aquele mundo.

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11/07/2022

Publicado em 11.7.22 por

Sátira e aventura na medida certa

Longe de ser o que muitas pessoas acham, "As Viagens de Gulliver" não é uma obra ingênua ou simplória. Nesse clássico, Jonathan Swift satiriza de forma muito inteligente a sociedade inglesa do século XVIII, tecendo várias críticas ousadas sobre a ambição e a hipocrisia humanas. 

O protagonista, Lemuel Gulliver, é um médico-cirurgião que trabalha em navios e acaba se envolvendo em inesperadas aventuras por lugares estranhos e desconhecidos. Aqui vale lembrar que as adaptações que sempre vimos na TV retratam apenas a primeira aventura de Gulliver em Lilliput, mas na verdade, a história original é dividida em quatro partes que compreendem várias outras aventuras, como as viagens à Brobdingnag, à ilha flutuante de Laputa e à terra dos Houyhnhnms. A fim de não me estender muito, falarei um pouco apenas das quatro principais já citadas. 

Em Lilliput, Gulliver encontra um reino formado por pequeninos homens, perante os quais ele é um gigante. Lá, se envolve no conflito entre os liliputianos e os habitantes de um país vizinho chamado Blefuscu. Já em Brobdingnag, acontece o contrário: Gulliver chega numa terra de gigantes, sendo a estatura dele minúscula diante de todos. Após ser descoberto, ele é transformado numa curiosa atração para os habitantes daquele reino e procura uma oportunidade para fugir daquele lugar. Em outra ocasião, quando visita a ilha flutuante de Laputa, o viajante conhece um povo bastante intelectual, obcecado pela música e matemática, mas que não aplicava seus conhecimentos de maneira conveniente, deixando de lado questões práticas do dia a dia. Na sua última aventura, Gulliver conhece a terra dos Houyhnhnms, uma raça de cavalos falantes que vivem numa sociedade altamente racional e organizada. Em contraste com os virtuosos Houyhnhnms, que são os governantes daquela região, há os Yahoos, seres humanoides que são uma espécie inferior e grosseira, muito similar ao homem primitivo.

Durante toda a leitura achei algumas passagens bem engraçadas devido a ácida ironia do autor. É claro que diversas analogias estão implícitas no texto e por isso, é necessário atentar a esses detalhes que, inclusive, fazem possíveis relações com personagens e fatos da época. Nesse quesito, seria interessante se alguma editora lançasse uma edição comentada desse clássico, pois muitas referências podem passar despercebidas ao leitor menos diligente.


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07/07/2022

Publicado em 7.7.22 por

Gatos em toda sua sutileza e astúcia

Apesar de serem bem curtos, estes sete contos trazem uma singeleza muito própria, delineando todo mistério e elegância que os bichanos sempre esbanjaram em qualquer história. Como um admirador nato desses animais, textos assim me cativam facilmente e fico atento a cada detalhe que remete ao modo de agir desses felinos tão icônicos. Lembrei de uma frase da escritora Roseana Murray que diz: "Gatos são poemas ambulantes." Heloísa Seixas captou bem essa verdade e conseguiu imprimi-la nessa pequena obra.

Destaques:

Um dia, um gato
Em cima do piano
Sete vidas

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03/07/2022

Publicado em 3.7.22 por

Livros adquiridos (mai/jun 2022)

Continuando a nossa série bimestral de postagens a respeito das obras compradas nesse ano, segue essas ótimas indicações de títulos que consegui durante maio e junho. 

• A Obra em Negro (Marguerite Yourcenar)

O livro narra a vida de Zênon, um médico do século XVI que também se torna filósofo e alquimista. A narrativa aborda vários aspectos históricos que envolvem o período de transição da Idade Média para o Renascimento. Ainda não li nada da autora, mas pelos elogios a respeito dela, tenho boas expectativas.

• Amor de Perdição (Camilo Castelo Branco)

Marco do romantismo português, essa obra conta a história de um amor impossível entre os jovens Simão e Teresa, ambos pertencentes a famílias rivais. Conheço esse livro apenas por fragmentos que vi na época da faculdade, mas agora, pretendo lê-lo na íntegra. 

• O Agente Secreto (Joseph Conrad)

Essa obra de Conrad apresenta uma abordagem diferenciada para o repertório do autor ao explorar a temática de espionagem. A história tem como cenário a Londres do início do século XX e segue uma linha mais ágil, com inesperadas reviravoltas no enredo.

O Fantasma da Ópera (Gaston Leroux)

Como muita gente, eu também só conhecia essa obra pela versão do musical (o qual eu nem sabia que era uma adaptação até certo tempo). Esse romance gótico é parcialmente inspirado em fatos históricos da Ópera de Paris, mesclados com vários relatos ficcionais.

A Moreninha (Joaquim Manuel de Macedo)

Essa é uma história de amor entre os jovens Augusto e Carolina, mas que antes, envolve uma arriscada aposta em cima desse relacionamento. A narrativa se passa em uma ilha próxima ao Rio de Janeiro em meados do século XIX e retrata vários costumes da sociedade da época.

Grandes obras de Shakespeare 2 (William Shakespeare)

Esse novo box dá continuidade à antologia de obras essenciais do Bardo lançadas pela Nova Fronteira em três volumes (tragédias, comédias e peças históricas), cada um contendo quatro peças. Essa edição especial também traz notas e textos complementares.

• Chão em Chamas (Juan Rulfo)

Essa é a única coletânea de contos do autor de "Pedro Páramo". Aqui temos histórias com fortes influências regionalistas que revelam muito do cenário mexicano do início do século passado. São 17 contos que retratam bem o contexto sociocultural no qual Juan Rulfo viveu. 

Milagres (C. S. Lewis)

Nessa obra Lewis nos leva a questionar nossas crenças a respeito da existência de milagres. Em uma abordagem profunda acerca do naturalismo e sobrenaturalismo, o autor expõe justificativas que nos levam a refletir sobre a atuação de Deus em nossas vidas através de tais manifestações.

• O Amor nos Tempos do Cólera (Gabriel García Márquez)

Esse romance foi inspirado na história dos pais do autor e narra os encontros e desencontros de Fermina Daza e Florentino Ariza, abrangendo um período de mais de 50 anos. Como em outras obras do Gabo, há também diversas referências ao contexto político-social colombiano.

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