25/11/2023

Publicado em 25.11.23 por

Façanhas que superam o improvável

Obra clássica no gênero de ficção científica, Da Terra à Lua é um dos livros mais "proféticos" de Júlio Verne, que com suas descrições detalhadas antecipou de maneira notável as conquistas da exploração espacial, a qual só viria à tona quase um século depois da publicação desse volume.

A história se inicia com a apresentação do "Gun Club", um clube de entusiastas de armas de fogo que, entediados após o fim da Guerra Civil Americana, procuram um novo desafio. Eles decidem então criar um projétil que possa ser disparado até a Lua e, a partir daí, a trama segue os membros do clube em sua busca pela realização desse feito, incluindo a construção de uma arma de fogo gigante e a escolha dos tripulantes que farão parte da missão.

Algo bem evidente nesse romance é que o autor quase não foca nos personagens, mas dá prioridade às questões técnicas que envolvem a tão cobiçada viagem à Lua. Na maior parte do tempo, há excesso de informações científicas a fim de dar mais solidez ao argumento da obra. Com tantos dados, tive a impressão de que Verne realmente escondeu alguns códigos secretos por entre a narrativa, pois nada ali parece ter sido colocado à toa (existem até mitos a respeito disso). Ao final de tudo, o livro encerra dando espaço para uma continuação que o autor só publicaria quatro anos depois, em 1869 (intitulada "Ao redor da Lua").

Apesar de apresentar pouca ação se comparado a outros títulos da série "Viagens Extraordinárias", essa aventura se destaca pela meticulosa abordagem astronômica numa época em que a tecnologia ainda estava longe de qualquer realização fora do planeta Terra. Além disso, a audácia de Barbicane e seus amigos também demonstra o quanto se pode conseguir fazer quando há pessoas trabalhando unidas em prol de um objetivo em comum, mesmo que seja algo aparentemente impossível de conquistar.

Créditos da imagem de fundo: @peedritta 
(Foto tirada no Centro de Convenções de Barreirinhas-MA)
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19/11/2023

Publicado em 19.11.23 por

A Camisa Azul

Queria muito ter comprado aquela camisa-azul marinho, não muito diferente das outras que eu já tinha em casa. Apesar de não se diferenciar do restante do meu guarda-roupas (repleto também de camisas azuis), achei por um momento que seria uma boa aquisição, uma vez que a etiqueta interna do produto trazia a atraente mensagem de “edição limitada” e encontrar outro modelo daquele seria bem difícil.

Refleti então que isso poderia implicar no meu possível desejo de comprar mais uma roupa somente pelo “ar de novidade”. Se bem que o fim do ano seria o apelo mais razoável para se renovar o vestuário, afinal, todo mundo gosta de usar trajes novos no Natal e no réveillon. Outra questão seria a proximidade do meu aniversário, mas se fosse por isso, valeria a pena comprar um presente para mim mesmo ou eu deveria ceder à ilusão de que outra pessoa pudesse me dar algo parecido? De qualquer maneira, não pude deixar de perceber que a influência meramente comercial e consumista quase sempre é a mais gritante acima de tantos outros motivos.

Camisa cara, mas bonita, um pouco grande no tamanho, mas poderia ser ajustada na costureira depois (coisa que minha avó fazia tão bem). Fiquei estacionado no dilema concernente ao preço: poderia eu pagá-la? Meu contrato de emprego tinha chegado ao fim naquela semana e as contas pendentes já protestavam nos meus lembretes diários, cada uma, apresentando seus incômodos valores e possíveis juros.

Nesse instante, um desconforto me invadiu, deixando-me indiferente ali na entrada daquela loja. Olhando para a rua, pude notar então as pessoas indo e vindo, com sacolas e embrulhos nas mãos, como se fossem um exército de formigas levando suas provisões para o inverno através de tortuosas estradas. Será que algum daqueles indivíduos também passara pela mesma situação que eu estava enfrentando ou será que todos compraram sem nenhuma hesitação? Talvez sim, talvez não. Mesmo assim, a vida deles era outra, quiçá com as mesmas razões, mas motivos e impulsos particularmente distintos dos meus, ainda que pudessem ser aparentemente similares.

Meu olhar desviou-se da multidão e voltei-me novamente para a camisa outrora almejada. Já não me sentia mais tão atraído por ela, mas decidi entrar em outra sessão da loja a fim de pesquisar roupas mais baratas. Olhei... Olhei... mas nada enchera meus olhos da mesma forma como a camisa de “edição limitada”. Voltei então decidido a me arriscar em comprá-la, mas quando cheguei ao manequim que vestia a mesma, notei que ela já não estava mais lá. Virei o rosto de lado e vi que outro cliente a estava levando. Bem, pelo menos, eu havia tentado.

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11/11/2023

Publicado em 11.11.23 por

Desafiando as sombras de um mal antigo

Expoente máximo do terror clássico, Drácula me trouxe surpresas que romperam com aquela visão estereotipada que eu já tinha da obra devido suas inúmeras adaptações na cultura pop (inclusive, já falei sobre uma experiência parecida com "Frankenstein" em outra resenha). Sei que é quase impossível desassociar essa obra de seus derivados modernos, mas ao lê-la, tentei deixar de lado algumas dessas influências para me deter apenas no escopo original de Bram Stoker (que achei bem mais interessante).

Um aspecto curioso é que a história se desenrola por meio de uma série de cartas, diários e recortes de jornais, criando um formato narrativo diferenciado para a época. O suspense é constante, sempre dando lugar a novas descobertas feitas pelos heróis da trama. A ambientação gótica impressa nessa obra é de certa forma tão envolvente que imerge o leitor numa jornada repleta de elementos intrigantes que mantêm a tensão e o fascínio ao longo de toda a narrativa.

Outra questão que preciso enfatizar é o fato de que o mal em Drácula nunca é tratado como algo relativo ou ambíguo, ao contrário, é mostrado sempre como uma coisa ruim que deve ser combatida e derrotada com muita coragem e determinação. Assim que Van Helsing e seus amigos entendem a gravidade do problema que estão enfrentando, isso é bastante notório, inclusive, nos pontos cruciais onde a proteção e a resignação divinas são indispensáveis para a vitória.

Enfim, uma coincidência legal que percebi no último capítulo foi que o período de conclusão da minha leitura combinou com a mesma sequência de dias registrados pelos personagens no final da história (1 a 6 de novembro). Com um desfecho rápido, porém satisfatório, o livro encerra entregando um dos maiores romances literatura, provando que sua relevância e impacto tem resistido facilmente ao teste do tempo, conquistando assim novos leitores e ajudando a perpetuar o legado do gótico clássico.

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