26/11/2022

Publicado em 26.11.22 por

Paternidade desolada


Minha primeira escolha para ler Balzac foi certeira! Nesse clássico da obra A Comédia Humana temos uma ótima história com personagens muito bem construídos e pautados num realismo fascinante. O autor soube descrever com fidelidade parte do cotidiano da grande Paris, seja na figura de seus habitantes como também da aristocracia francesa.

Temos no romance o desenvolvimento de duas histórias distintas que se entrelaçam: a do pai Goriot e do jovem estudante Eugène Rastignac. Ambos moram na mesma pensão (a casa Vauquer) juntamente com outras pessoas que compartilham com eles da mesma mesa durante as refeições diárias.

Nesse pequeno círculo, pai Goriot é alvo de constantes chacotas dos outros moradores devido sua personalidade mais reservada e atitudes aparentemente estranhas, porém nem todos sabem do motivo que o fez se isolar naquela pensão. Após certo tempo, ele começa a receber a visita de duas senhoritas elegantes que sempre entram e saem misteriosamente sem nenhuma explicação. Essas duas jovens são suas filhas, que apesar de já casadas com homens ricos, ainda tiram proveito dos últimos bens de seu genitor, o qual faz de tudo para ver o bem delas. Todo pai quer o melhor para seus filhos, mas em se tratando do velho Goriot, dar esse melhor acabou incluindo sacrifícios que o exauriram ao limite a ponto de o mesmo ficar quase sem recursos para sobreviver.

É nessa hora que entra Eugène, que por uma irônica coincidência, acaba se envolvendo com Delphine, uma das filhas de Goriot. Eugène tinha começado a frequentar bailes e reuniões da alta sociedade parisiense e se apoiava na influência de sua prima rica a fim de conseguir adentrar nesse requintado mundo. No entanto, o ambicioso jovem se depara com vários desafios, principalmente por ser de uma classe social mais baixa. Ainda assim, ele se esforça para alcançar seus objetivos em meio ao agridoce sabor das conquistas e frustrações dessa nova fase.

Em meio a esse conjunto de acontecimentos somos levados a diversas reflexões que sempre colocam em evidência pontos importantes nos quais os personagens se encontram envolvidos, seja em jogos de interesses pessoais ou em conflitos éticos. Tudo caminha rumo às consequências das escolhas de cada um dentro desse inconstante redemoinho.

Enfim, sei que A Comédia Humana é uma série bem extensa e com muitos personagens interligados, mas recomendo esse livro em especial para aqueles que ainda não conhecem Balzac e procuram uma boa porta de entrada para sua obra. Eis aqui uma ótima amostra da genialidade deste grande autor francês.

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19/11/2022

Publicado em 19.11.22 por

Albor pueril

Quando criança, o amanhecer era um enigma pra mim. Queria entender como o sol surgia na transição da noite para o dia e achava tudo isso um grande mistério. Desejava muito despertar bem cedo e poder captar o momento certo em que as trevas fugiriam da luz e tudo se transformasse ao calor do Astro-rei. Dormia na esperança de que isso acontecesse, pois na época eu nem sequer tinha um despertador para me ajudar. Enfim, minha curiosidade permanecia incólume com o passar do tempo e aquela doce sensação que eu tinha quando abria os olhos ao acordar sempre me cobrava do espetáculo que eu perdia. 

Foi então que certa vez, por capricho da natureza, despertei por coincidência naquele almejado horário. Fui sem demora ao quintal de casa, que era voltado para o lado onde nascia o sol, e fiquei a observar aqueles raios fulgurantes que abriam caminho em meio à escuridão. A aurora veio e trouxe toda beleza somente encontrada no raiar de um novo dia. Em minha inocente infância, mal sabia eu que aquele vislumbre seria o primeiro de muitos outros. O alvorecer da vida estava apenas começando.

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12/11/2022

Publicado em 12.11.22 por

Enigmas artísticos e literários

A Coleção Particular é uma narrativa breve e curiosa, que deve ser lida sem muitas pausas. Sua trama prende a atenção do leitor por meio de interessantes perspectivas a respeito do acervo de quadros de um misterioso colecionador chamado Hermann Raffke, dando destaque especial a uma pintura extremamente enigmática que é o destaque dessa coleção.

Apesar das descrições sobre os quadros (e suas aquisições) serem tediosas em certos momentos, Perec sabe guiar (e enganar) o leitor muito bem até a chegada da revelação final, quando ficamos a par do verdadeiro pivô que envolve a venda de todo catálogo do famigerado Raffke.

No conto A Viagem de Inverno, temos também um mistério, só que desta vez, ligado ao mundo da literatura. O jovem professor Vincent Degräel encontra um livro de um obscuro escritor, cujo conteúdo teria sido supostamente plagiado de vários trechos memoráveis da literatura francesa do fim do século XIX. A grande questão é que tal livro seria anterior a qualquer uma daquelas famosas obras ditas originais, o que leva Degräel a investigar o caso. 

Em ambas narrativas, Perec brinca com o leitor usando de vários recursos e mesclando diferentes gêneros, além de enriquecer o texto com muitos detalhes temáticos. O autor faz um jogo literário que exercita nossa compreensão ao mesmo tempo em que nos surpreende, fazendo desta uma experiência bastante peculiar de leitura.


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06/11/2022

Publicado em 6.11.22 por

Ecos de vidas distantes

De todas as narrativas de fantasmas que já li, Pedro Páramo é uma das mais originais e enigmáticas. À princípio, parece ser uma leitura desordenada, mas tudo vai fazendo sentido na medida em que os episódios vão sendo apresentados. O romance é dividido em fragmentos que vão se alternando, sendo que a narrativa é construída a partir das vozes de diferentes personagens. Daí, o sobrenatural se confunde com a realidade, onde mortos e vivos comungam da mesma sina no povoado fantasma de Comala. Nesse cenário de desolação vamos acompanhando todo quebra-cabeça que irá mostrar como foi difícil a vida dos habitantes daquele inóspito lugar, onde o cruel Pedro Páramo dominou com mão de ferro até que tudo ao seu redor definhasse com ele.

Não achei a escrita de Juan Rulfo densa, ao contrário, a linguagem usada pelo autor é bastante simples e objetiva, com fortes traços da tradição oral. O pesado nesse livro é somente a atmosfera brumosa e às vezes lúgubre que percorre boa parte da história. No entanto, esse clima não é constante e se reveza com momentos mais tranquilos.

Como qualquer grande clássico, essa é uma obra que não se esgota em suas múltiplas e possíveis interpretações, sendo que não se pode captar todas as inferências de seu enredo apenas numa única leitura.

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