Certa vez, Ariano Suassuna contou que um dramaturgo tentara o desencorajar de escrever o Auto da Compadecida sob o argumento de que o estilo teatral estaria ultrapassado e a temática do sertão nordestino desgastada. Além disso, ainda contestou que os nomes dos personagens principais seriam intraduzíveis para outras línguas. O autor claramente não se deixou levar por essas objeções e o resultado vemos hoje nessa que é uma das mais conhecidas (senão a mais popular) peça brasileira.
Auto da Compadecida é uma daquelas obras que dispensam apresentações, principalmente por ser já tão conhecida do público em geral (mérito esse muito impulsionado pela adaptação que a peça teve para televisão). O leitor que assistiu ao filme não encontrará muitas diferenças na versão original de Suassuna e com certeza dará inúmeras risadas.
A dinâmica da dupla João Grilo e Chicó é uma das mais engraçadas que já vi e não perde em nada para outras grandes obras cômicas da literatura universal. A propósito, é notório que Ariano bebeu muito das antigas tradições medievais e também da literatura nordestina de cordel, mas todas essas influências ganham um sabor especial na forma como o autor vai desenrolando sua história. Os personagens são caricatos, porém isso faz parte da performance e só enriquece mais a trama. Elementos como a religiosidade e a sátira são pontos fundamentais que se aliam à crítica inteligente de Suassuna numa narrativa assaz cativante.
Após essa leitura, fui rever alguns vídeos de Ariano na internet e novamente me diverti com tantos causos relatados pelo escritor mediante sua vasta experiência de vida. Esse é o tipo de coisa que me faz lembrar do grande legado deixado por autores nacionais que lançaram mão da cultura popular para produzir obras incríveis de nossa literatura.
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