27/09/2022

Publicado em 27.9.22 por

Ideias ótimas que não foram bem trabalhadas

Robert Silverberg criou ótimas premissas para essa coletânea, porém a sensação que tive foi de que tudo tinha sido abordado de maneira um tanto superficial (até mesmo para os moldes de um conto). O desenvolvimento de algumas histórias chega a ser bom, como em "Estrada para o anoitecer" e "A contraparte", mas em vários pontos faltou um encadeamento mais eficaz que "costurasse" melhor a sequência dos eventos narrados com a proposta dos contos. Quanto aos argumentos científicos, eles são bem interessantes, mas não se sustentam muito justamente devido ao problema já citado. Silverberg se perde diversas vezes no caminho, deixando de aproveitar excelentes ideias que certamente renderiam narrativas exemplares para o gênero. Apesar de tudo, esta foi uma leitura que conseguiu me entreter, ainda que com essas ressalvas.

Destaques:

Os exógamos 
Estrada para o anoitecer
A contraparte

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18/09/2022

Publicado em 18.9.22 por

Quando o trágico e o cômico andam juntos

Nikolai Gogol foi um dos pioneiros da literatura russa moderna. Sua obra apresenta diferentes metáforas e simbolismos, indo do realismo ao fantástico. Além disso, o grotesco sempre caminha ao lado de seus personagens tragicômicos em situações muitas vezes bizarras e sem explicação. Nesta antologia, lançada pela editora 34, temos cinco contos que dão prova da genialidade do autor. Vamos a eles: 

Repleto de crítica social, "O Capote" fala de desigualdades e da falta de empatia pelo próximo. O protagonista Akáki é alvo de constantes humilhações por parte de seus colegas e sofre uma perda inestimável ao ter seu precioso capote roubado.

A ironia afiada de Gógol é bem presente em "Diário de um Louco", onde o protagonista vive um delírio esquizofrênico de poder e riqueza em meio a situações constrangedoras e engraçadas.

"O Nariz" é uma sátira mordaz revestida de história cômica. Todo absurdo dessa história traz um forte teor crítico à burocracia russa da época. A história parte do momento em que o nariz de um major some de seu rosto e toma vida própria.

"Noite de Natal" é uma narrativa folclórica do ciclo ucraniano que mistura elementos pagãos com tradições cristãs. Há nela uma série de peripécias envolvendo o diabo e os habitantes de um povoado durante uma véspera natalina.

"Viy" também é inspirado em velhas lendas do imaginário russo. É um dos contos mais sinistros que já li. Trata da luta de um estudante de filosofia contra forças sobrenaturais ligadas à uma jovem bruxa morta.

Obviamente, as figuras usadas por Gógol não são aleatórias e possuem um papel importante em cada história, por isso, o leitor deve-se ater ao contexto sociocultural russo/ucraniano do início do século XIX a fim de compreender melhor certas questões. Quanto a isso, a edição da 34 ajuda bastante com várias notas de rodapé e um ótimo posfácio. Recomendo!

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12/09/2022

Publicado em 12.9.22 por

Considerações de 1 ano do blog

No dia 10 de setembro esse despretensioso blog completou 1 ano de existência. Quando o criei, eu já tinha algumas dezenas de mini resenhas publicadas timidamente lá no Skoob. Eram impressões de leituras feitas entre 2014 a 2021 e nunca tinha pensado em publicá-las em outro lugar, no entanto, motivado pela minha esposa, resolvi organizar todos aqueles pequenos textos aqui, assim como falar de outras coisas que sempre tive vontade a respeito de livros. Fazer isso serviu também como uma forma de terapia e continua me ajudando a lidar com a ansiedade e certos problemas de déficit de atenção.

Embora já tenhamos postado em nosso blogspot todas as resenhas referentes até o ano passado (e algumas de 2022 também), lá no Instagram ainda faltam diversas delas e iremos publicá-las na medida em que formos captando novas imagens com ambientações interessantes para cada livro. Devido às nossas ocupações profissionais e domésticas, às vezes nem temos um tempo livre pra isso, mas quando conseguimos um espaço, aproveitamos logo a oportunidade. 

Enfim, darei prosseguimento sempre que possível às atividades aqui do blog, por isso, não deixe de nos visitar. É um imenso prazer poder compartilhar esse amor pela leitura e incentivar outras pessoas pelo mesmo. Muito obrigado por nos acompanhar e curtir nosso trabalho! 

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09/09/2022

Publicado em 9.9.22 por

Qual o limite entre a loucura e a sanidade?

Machado mais uma vez se superou em uma história repleta de fina ironia e perspicácia. Nessa pequena novela, o médico Simão Bacamarte diagnostica como loucura qualquer característica particular que possa aparentar uma possível "ameaça" à saúde pública e assim vai vivendo uma série de controvérsias que acabam afetando toda população de Itaguaí e até ele mesmo. A principal questão que fica então é: o que realmente distingue uma pessoa louca de uma sã?

Dos vários escritos de Machado de Assis, esse é certamente um dos que achei mais engraçados e mordazes. A crítica que o autor faz ao cientificismo é incisiva e com boas doses de humor, sendo tudo isso expresso de maneira bem enxuta em poucas páginas. Por essas e por outras que Machado é o meu autor brasileiro favorito. 

Obs: Apesar de ser uma narrativa curta, essa novela apresenta muitas referências que podem passar despercebidas ao leitor. Recomendo alguma edição com notas de rodapé, que ajudam bastante na contextualização de certas passagens. Há desde edições mais simples, como a da Martin Claret e da L&PM Pocket, até outras mais luxuosas, como da Antofágica.

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05/09/2022

Publicado em 5.9.22 por

Desafios num mar de incertezas


Boa parte das obras de Conrad mostram o mar como pano de fundo de suas histórias e esta, em especial, reflete muito da própria vida do autor, que também foi um marinheiro durante vários anos.

A Linha de Sombra inicia com um jovem marujo determinado a deixar seu ofício, porém, logo é convencido a tomar a frente de um navio como capitão. Nessa empreitada, o protagonista (o autor não revela seu nome) enfrenta diversos problemas a bordo: supostos mistérios e maus presságios acompanham a tripulação o tempo todo e criam um ambiente apreensivo que só irá acabar no último capítulo. Em suma, vemos que o romance expõe simbolicamente o rito de passagem entre a juventude e a maturidade através das experiências do jovem capitão nessa difícil jornada.

Quanto à dinâmica da narrativa, Conrad chega a ser lento em muitas descrições, mas depois melhora o ritmo a partir da terceira parte. Nessa altura, o vocabulário náutico é capaz de deixar o leitor mais leigo perdido em alguns pontos, mas nada que um bom glossário não resolva.

Enfim, mesmo com a ambientação marítima (que tanto amo) e um bom plot, esse não ficou entre os meus livros preferidos do autor, mas admito que há ótimos momentos que fazem o mesmo valer a leitura.

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