12/08/2022

Publicado em 12.8.22 por

O Som e a Fúria que arrasam tudo ao seu redor


Até hoje me pergunto como um livro de narrativa tão confusa e caótica se tornou um dos meus favoritos. "O Som e a Fúria" foi um marco na minha vida de leitor e vejo que o fato de o ter lido numa época em que estava enfrentando terríveis crises de depressão me trouxe um impacto tão forte que o resultado não poderia ser diferente de uma fortuita epifania.

Pelo pouco que pude constatar, não são muitos leitores brasileiros que apreciam a obra de Faulkner. Ele é daquele tipo de autor que divide opiniões (aqui, não me refiro à crítica especializada), mas cuja genialidade impõe respeito mesmo assim. Ainda que alguns possam achar que ele seja um tanto monotemático, não se pode negar que seus livros exploram com muita competência as sutilezas da alma humana, principalmente, em meio à degradação moral e social. 

Na sua obra máxima, O Som e a Fúria, Faulkner destrincha a gradativa ruína da aristocrática família Compson, assim como suas consequências. Fazendo uso de uma narrativa nem um pouco linear nas duas primeiras partes do romance, o autor cria um verdadeiro caleidoscópio de perspectivas, misturando passado e presente em várias passagens fragmentadas através do fluxo de consciência dos narradores. As outras duas partes restantes já são mais "convencionais" em sua estrutura, dando uma visão mais clara dos acontecimentos, bem como da conclusão da trama. 

Em certas páginas me vi aflito com a difícil situação em que personagens estavam mergulhados: conflitos familiares, indiferença, intenções suicidas, canalhice, preconceitos raciais... Era um espelho sujo que refletia coisas horrendas que repudiamos, mas que no fundo, já toleramos alguma vez sob certas circunstâncias de caráter duvidoso. Toda aquela decadência correspondia de certa forma com o caos dentro de mim, ainda que eu não fosse necessariamente um praticante assíduo de tais atitudes nefastas. Isso me fez ver de modo claro que a minha condição não era diferente de tantos outros que também se encontravam presos aos caprichos de sua própria ignomínia.

Me lembro que quando terminei essa leitura me senti em estado de êxtase por vários minutos, digerindo aos poucos aquele desfecho. Um turbilhão de pensamentos girou na minha cabeça e saboreei cada lampejo daquele instante ímpar. Havia chegado a um clímax que nem eu mesmo esperava e aquele sobressalto foi o suficiente para me fazer emergir da letargia emocional que tanto me sufocava. Saindo desse mergulho constatei que a literatura verdadeiramente tem o poder avassalador de mudar vidas, ainda que para esse fim seja necessário um confronto direto com nossos medos e traumas mais profundos.