15/02/2026

Publicado em 15.2.26 por

O medo que mora ao lado


Quando criança, assisti com meus pais ao filme "Janela Indiscreta" do renomado diretor Alfred Hitchcock. Os anos passaram, mas aquela trama ficou gravada na minha memória, ainda que eu não lembrasse de todos os detalhes dela. Depois de adulto, descobri o autor original da história e fiquei curioso em conhecer mais de sua obra. 

Foi assim que cheguei nesta antologia de cinco contos policiais do escritor Cornell, a qual traz narrativas instigantes e muito bem encadeadas. Nelas, há sempre uma tensão constante entre o olhar e o julgamento, como se o leitor fosse colocado na posição de cúmplice silencioso dos acontecimentos. A escrita do autor é econômica, precisa e sem excessos, mas ainda assim carregada de atmosfera.

Nas histórias, é fácil perceber que o suspense não nasce apenas do crime em si, mas da espera, da paranoia e da sensação de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento (e quase sempre acontece). Os personagens são pessoas comuns, presas a rotinas banais, mas que acabam envolvidas em situações extremas, sem heroísmo ou grandes saídas morais. E é justamente isso que torna os contos tão inquietantes, pois há neles uma verossimilhança muito forte com a realidade.

Pra mim, concluir essa antologia foi um reencontro com aquele mistério que me fascinou na infância diante da TV. Redescobrir Cornell Woolrich agora, com um olhar mais maduro, revelou que o impacto de "Janela Indiscreta" não era apenas visual, mas fruto de uma escrita mestre em transformar o comum em algo sufocante. Esse livro prova que, assim como no clássico de Hitchcock, o maior perigo muitas vezes não está no que vemos, mas naquilo que nossa mente projeta através da fresta da janela.

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18/01/2026

Publicado em 18.1.26 por

Entre águas e memórias

Ler "Ygarapés" é como aceitar um convite para entrar em um barco e se deixar levar pela correnteza das lembranças de Socorro Costa. Diferente de um guia geográfico, o que encontramos aqui é um mergulho profundo na alma de Barreirinhas. Para a autora, os rios e igarapés não são apenas paisagem; eles são os fios que tecem sua própria identidade.

Ao percorrer as páginas de "Ygarapés", a hidrografia da região se transforma em um verdadeiro mapa afetivo. Socorro não apenas descreve a fauna e a flora; ela nos faz sentir a umidade do ar e a pulsação da vida ribeirinha. É uma escrita que respira, onde a poesia e a memória se misturam à observação atenta de quem conhece cada curva do caminho.

A obra também ultrapassa a admiração estética para se tornar um manifesto: um chamado urgente à preservação dos nossos ecossistemas. Defender essas águas é, no fim das contas, proteger o modo de vida de comunidades que dependem desse equilíbrio para existir.

"Ygarapés" é uma homenagem vibrante à força da natureza maranhense. É um registro necessário, sensível e, acima de tudo, enraizado. Um tributo para quem, assim como as águas, entende que a vida é feita de fluxos, retornos e resistências.

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