Quando criança, assisti com meus pais ao filme "Janela Indiscreta" do renomado diretor Alfred Hitchcock. Os anos passaram, mas aquela trama ficou gravada na minha memória, ainda que eu não lembrasse de todos os detalhes dela. Depois de adulto, descobri o autor original da história e fiquei curioso em conhecer mais de sua obra.
Foi assim que cheguei nesta antologia de cinco contos policiais do escritor Cornell, a qual traz narrativas instigantes e muito bem encadeadas. Nelas, há sempre uma tensão constante entre o olhar e o julgamento, como se o leitor fosse colocado na posição de cúmplice silencioso dos acontecimentos. A escrita do autor é econômica, precisa e sem excessos, mas ainda assim carregada de atmosfera.
Nas histórias, é fácil perceber que o suspense não nasce apenas do crime em si, mas da espera, da paranoia e da sensação de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento (e quase sempre acontece). Os personagens são pessoas comuns, presas a rotinas banais, mas que acabam envolvidas em situações extremas, sem heroísmo ou grandes saídas morais. E é justamente isso que torna os contos tão inquietantes, pois há neles uma verossimilhança muito forte com a realidade.
Pra mim, concluir essa antologia foi um reencontro com aquele mistério que me fascinou na infância diante da TV. Redescobrir Cornell Woolrich agora, com um olhar mais maduro, revelou que o impacto de "Janela Indiscreta" não era apenas visual, mas fruto de uma escrita mestre em transformar o comum em algo sufocante. Esse livro prova que, assim como no clássico de Hitchcock, o maior perigo muitas vezes não está no que vemos, mas naquilo que nossa mente projeta através da fresta da janela.



