23/03/2025

Publicado em 23.3.25 por

Muito além da violência

Assim como muitos garotos nascidos nos anos 80, Rambo também foi uma das minhas franquias favoritas na infância, além de representar o ícone de uma época em que ser durão e invencível era o arquétipo do herói ideal. Anos depois, fiquei surpreso ao saber que a história do primeiro filme da série havia sido inspirada em um livro, o qual procurei muito até encontrar uma edição brasileira esgotada há décadas.

Nesta leitura da obra original pude perceber melhor a riqueza de vários detalhes que o autor David Morrell utilizou para explorar questões importantes que até então eram ignoradas pela sociedade americana pós-Vietnã, como o trauma da guerra e a alienação que muitos veteranos enfrentavam ao reintegrar-se à vida civil. 

A sina do jovem Rambo representa muito bem isso, mostrando que suas cicatrizes não eram apenas físicas, mas também emocionais, refletindo a luta interna de um homem que não consegue encontrar paz em um mundo que não o compreende. Dessa forma, essa é uma história que vai muito além da mera violência gratuita, pois trata abertamente sobre a dor da solidão e a busca por aceitação.

Uma questão bem importante que acho necessário apontar aqui são algumas diferenças fundamentais entre o livro e o blockbuster estrelado por Sylvester Stallone em 1982. Sendo assim, vamos lá:

No livro de David Morrell, a trama é mais orientada para o desenvolvimento psicológico e emocional de Rambo, assim como do xerife Teasle. Já no filme, o protagonista é retratado mais como um herói de ação do que como um personagem problemático. Além disso, a interpretação de Stallone, juntamente com o roteiro, imprime no personagem uma áurea mais "overpower" durante os conflitos com a polícia. Fora isso, ainda há o desfecho, que é bem menos trágico no cinema se comparado com o livro.

Em suma, só tenho a dizer que essa é uma leitura essencial para quem deseja compreender melhor um dos ícones mais emblemáticos da cultura pop. Seja no livro ou no filme, Rambo transcende o mero entretenimento e continua a suscitar reflexões sobre a natureza da violência e os males causados pela guerra, se tornando assim um símbolo de questões bem mais profundas e universais.

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09/03/2025

Publicado em 9.3.25 por

Um verdadeiro faroeste à lá Brasil

A trama apresenta a trajetória de Cajango, um homem que carrega em si a dureza e a brutalidade do interior baiano na época do ciclo do cacau. Após o assassinato de sua família, o jovem Cajango é o único que escapa do massacre, sendo ajudado pelos empregados de seu pai e indo se refugiar no meio da mata fechada do sul da Bahia.

Já adulto, Cajango retorna em busca de vingança e acaba reunindo um grupo de foras da lei dispostos a lutar ao seu lado. A narrativa é construída em torno desse desejo de vingança, mas, à medida que a história avança, torna-se claro que o embate é muito mais do que uma simples questão de ajuste de contas: é uma luta contra o destino, contra a própria terra que molda e destrói. 

Os episódios são narrados a partir da perspectiva de João Caio, um novato do grupo, que vai conhecendo a história de Cajango e seus homens por meio de pequenos relatos que o leitor irá acompanhando mediante flashbacks esparsos entre os capítulos.

Por mais que boa parte da trama seja repleta de violência, Adonias Filho escreve tudo de uma forma tão envolvente que nada ali é supérfluo ou aleatório. A saga de Cajango como um anti-herói é praticamente um "faroeste à lá Brasil" e não perde em nada para outros grandes clássicos literatura nacional. 

Adonias Filho é mais um dos autores esquecidos e injustiçados de nosso país e devia ser redescoberto pelas novas gerações. Sua obra oferece uma visão crua e poética do sertão baiano, revelando as complexidades e contradições de uma terra marcada pela luta e pela resistência. Redescobrir Adonias Filho não é apenas resgatar um grande talento literário, mas também se conectar com um pedaço essencial da identidade cultural brasileira.

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