27/11/2021

Publicado em 27.11.21 por

Uma pequena novela que surpreende

Em poucas páginas, Conrad consegue fazer o que muitos escritores não fazem em mil! O Passageiro Secreto é uma pequena novela que traz suspense, cumplicidade e precisão sem ter que apelar para clichês e redundâncias narrativas. Uma prova de que para surpreender o leitor, tamanho nem sempre é documento. Outro elemento interessante presente aqui é o "tema do duplo", o qual é bem trabalhado pelo autor na figura do capitão do navio em contraste com o náufrago resgatado.

Obs: Em outras edições, esse livro pode ser encontrado com o título de "O Companheiro Secreto"

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25/11/2021

Publicado em 25.11.21 por

Introspecção


Me vejo. Se não me entendo, muitas vezes acabo me escondendo dentro de mim.

Me questiono. Perguntas acabam não sendo nada mais do que questionamentos vazios e sem respostas. 

Me avalio. Será que estou realmente usando meu tempo de forma sábia aqui nessa Terra?

Me acho. Creio que minha jornada ainda irá revelar vários porquês, mas também manterá silêncio naquilo que não devo saber.

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23/11/2021

Publicado em 23.11.21 por

A carreira de um artista cristão e seus bastidores

Antes de tudo, é preciso frisar que para se ter um bom entendimento deste livro é necessário primeiramente compreender o período em que o mesmo foi escrito, assim como todo contexto cultural que envolveu as igrejas evangélicas durante as décadas de 80/90. É óbvio que certas informações apresentadas na obra já são consideradas "datadas", como o fato de a maioria dos cantores cristãos na época dependerem mais da vendagem de álbuns físicos para seu sustento do que de cachês e/ou ofertas. Outro ponto peculiar também seria a predominância das gravadoras evangélicas e suas formas de atuação no mercado fonográfico brasileiro, quadro que mudou bastante nos últimos anos, uma vez que praticamente quase todos os selos desse nicho já foram extintos e boa parte dos artistas cristãos lançam seus trabalhos de forma independente hoje em dia nas plataformas digitais. 

Ficando a par destes pormenores, não há estranhamento algum na leitura, até porque o autor é bastante simples e objetivo em sua proposta de abordar sobre a relação "cantores/igreja" em contraste com o sucesso da música cristã nas mídias (com exceção da internet, que ainda "engatinhava" na época).

Sérgio é bem prático ao tratar de assuntos delicados e polêmicos que envolvem "o sucesso e o altar", assim como de suas experiências pessoais na área. Seu posicionamento corresponde ao padrão biblicamente usado em quase todas as igrejas evangélicas e não foge dos limites convencionais. Os relatos autobiográficos no decorrer dos capítulos ainda dão um toque bastante interessante, trazendo curiosidades sobre o Poeta da música evangélica desde o início de sua carreira no grupo carioca Altos Louvores até sua entrada no cast da gravadora Line Records.

No demais, resta uma pequena ressalva quanto à postura do autor a respeito do rock como estilo musical a ser usado nas igrejas. A opinião de Lopes poderia até soar contraditória, uma vez que ele tece diversas críticas negativas ao estilo, mas depois, acaba citando bandas como Catedral, Katsbarnea e Oficina G3 em uma lista de homenageados no capítulo final. No entanto, percebe-se que o autor se refere mais ao extremo exagero e irreverência usados por muitos músicos no tocante à estética e comportamento baseados em artistas não cristãos, o que, inevitavelmente, ainda causa escândalo na maioria das congregações cristãs brasileiras.

Por fim, este é um livro que informa ao mesmo tempo em que alerta sobre as diversas problemáticas inerentes ao ministério de louvor dentro e fora da igreja. Recomendo a leitura não somente aos admiradores do cantor Sérgio Lopes, como também àqueles que queiram conhecer um pouco mais sobre o tema.


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19/11/2021

Publicado em 19.11.21 por

Quase lá, Katherine Mansfield...

A princípio, imaginei que iria me identificar com Katherine Mansfield da mesma forma como gostei de Clarice Lispector, no entanto, não foi bem assim. Apesar dos contos de Katherine serem muito bem escritos e de toda minha atenção dada à leitura, só consegui apreciar metade dessa coletânea. Talvez, eu não tenha me entregado o suficiente ou então, criei expectativas demais a respeito dos contos. Sempre gostei de narrativas que exploram o fluxo de consciência ou abusam de digressões, no entanto, com Mansfield, a experiência não foi complemente satisfatória. De qualquer maneira, não deixo de indicar a obra da autora, pois minha perspectiva inicial sobre a mesma não desqualifica em nada o significativo trabalho dela. Futuramente, ainda pretendo conhecer outros de seus contos e reler alguns a fim de reavaliar minhas impressões.

Destaques:
Na Baía
A casa de bonecas
As filhas do falecido coronel

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17/11/2021

Publicado em 17.11.21 por

Livros de bolso: compactos, mas precisos

Algumas pessoas podem não gostar deles, mas não se pode negar a praticidade e economia que os livros de bolso oferecem. Ainda que nem sempre sua diagramação seja confortável, é certo que esse formato já quebrou (e ainda quebra) o galho de muitos leitores por aí. 

Existem diversas edições pocket no mercado, mas irei citar em seguida aquelas que possuem mais abrangência na minha biblioteca por uma questão de gosto pessoal mesmo.

Zahar (Clássicos de bolso)
Essa série possui uma proposta mais voltada ao padrão de luxo, com capa dura e acabamento mais robusto. Um exemplar desses (dependendo às vezes do volume) custa um pouco mais que uma versão brochura comum.

L&PM pocket
A editora gaúcha é a que mais lançou livros nesse formato aqui no Brasil, totalizando mais de mil títulos publicados. A diversidade de seu catálogo é enorme e em termos de preço é o que mais sai em conta para o consumidor.

Companhia de Bolso (Cia das Letras)
O maior grupo editorial do país não poderia deixar de ter seus exemplares pocket também. Suas capas são simples e sem orelhas, mas com qualidade de papel superior. Geralmente, são obras já lançadas antes em tamanho normal e que só depois ganharam a versão de bolso.

Hedra  
De todos, creio que os livros de bolso da Hedra sejam os menores em tamanho, no entanto, isso não afeta a qualidade de seus exemplares. Seu projeto gráfico é simples, mas arrojado e de muito bom gosto. Sua coleção abrange desde contos e novelas até poemas, ensaios e peças.

Martin Claret
A editora reformulou todo seu catálogo nos últimos anos, dando sempre prioridade às edições de bolso com preços bastante acessíveis e novas traduções. As capas de suas edições brochura possuem orelhas e há agora uma série pocket de luxo também para os leitores mais exigentes.

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15/11/2021

Publicado em 15.11.21 por

Personagens notáveis e inesquecíveis

É incrível a capacidade de Dickens em criar personagens marcantes e distintos de maneira tão formidável! Pip, Estella, Senhorita Havisham, Abel Magwitch… todos são tão humanos que parecem ter saído da vida real. O tratamento que o autor dá a cada um deles é de uma destreza ímpar, delineando bem seus sentimentos, relações e conflitos pessoais. A ambientação de toda história também é igualmente caprichada, sempre feita de maneira muito concisa. 

Grandes Esperanças é um romance atemporal, que perpassa todos os limites possíveis para uma excelente obra prima. Recomendo a leitura deste clássico na tradução de Paulo Henriques Britto, cuja fluidez e notas explicativas são as melhores que vi até agora em língua portuguesa.


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13/11/2021

Publicado em 13.11.21 por

Se aventurando nos EUA do século XIX

"O Testamento de um Excêntrico" foi uma das últimas obras de Jules Verne a serem traduzidas para o português e uma das mais misteriosas no que diz respeito a supostas "mensagens cifradas" escondidas pelo autor em suas histórias. Independente de quaisquer teorias, o livro possui uma ideia completamente original para a época, pois nele Verne "preveu", de certa forma, os Reality Shows e toda fixação em torno desse tipo de entretenimento. A competição dos sete participantes do "Nobre Jogo dos Estados Unidos" é acirrada em cada capítulo, trazendo desafios e reviravoltas inesperadas para cada personagem, sendo impossível que o leitor não torça para algum deles em certos momentos.

Assim como nas outras obras de Jules Verne, esta também é repleta de detalhes geográficos no decorrer da trama, o que às vezes, pode tornar a leitura um pouco vagarosa, porém, com vislumbres únicos de diversas peculiaridades regionais dos EUA no final do século XIX. Quanto à edição especial da Carambaia, a mesma é um primor e surpreende pela qualidade das fotografias, mapas (que contextualizam várias referências sobre os lugares descritos nas aventuras), notas explicativas e acabamento. Sem dúvida, uma das melhores e mais maduras narrativas do visionário autor francês.


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11/11/2021

Publicado em 11.11.21 por

Cinco pequenas (grandes) obras para se iniciar na literatura russa

Quando se trata dos clássicos russos, geralmente, vejo pessoas com certa aversão ou desconfiança em relação aos mesmos, dizendo sempre que os tais "possuem uma linguagem muito complexa" ou "truncada" demais pra se compreender logo numa primeira leitura. Ainda que algumas obras sejam mesmo bem mais densas e exijam bastante do leitor (vide "Os Irmãos Karamazov", por exemplo), não podemos achar que isso as desqualifique. 

Os russos sempre foram excepcionais em sua escrita, abordando de forma incisiva os mais variados temas recorrentes ao homem e seus dilemas existenciais, além dos desdobramentos resultantes desses impasses. Pensando nisso, escolhi cinco sugestões de excelentes livros da literatura russa para você que ainda não teve contato com esse universo. 

A Morte de Ivan Ilitch (Liev Tolstoi)

É surpreendente como Tolstoi conseguiu escrever uma novela tão impactante em tão poucas páginas. Esse livro é um verdadeiro "soco no estômago" e conduz o leitor a questionar suas próprias escolhas feitas durante a vida. Elas valeram a pena? Eram aquilo que eu realmente deveria ter optado? 

Noites Brancas (Fiódor Dostoiévski)

Até onde sei, este seria o livro menos "denso" do Russo dos russos. A história se passa em apenas quatro dias e envolve longas conversas entre dois personagens que tentam encontrar consolo um no outro em meio a dúvidas a respeito do amor e da vida.

A Estepe (Anton Tchekhov)

O relato de uma simples viagem é visto de uma forma bastante peculiar nessa obra. Enxergamos tudo através da perspectiva de um garoto, que em toda sua singularidade, analisa a natureza à sua volta juntamente com as pessoas que vão passando por ele durante essa jornada. 

O Capote (Nikolai Gogol)

Esse é um conto que aborda mazelas sociais em meio à indiferença e hipocrisia humana. Narra a história de um solitário funcionário público, chamado Akakiévitch, que passa por situações difíceis que giram em torno da aquisição e roubo de seu capote novo. 

Primeiro Amor (Ivan Turgueniev)

Essa breve história narra a primeira experiência amorosa de um personagem chamado Vladimir Petrovich. Na luta para obter o amor de sua vizinha Zinaida, ele enfrenta muitos embaraços e verá que as coisas não serão bem da forma como ele deseja.

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07/11/2021

Publicado em 7.11.21 por

Uma obra enigmática e primorosa

A prosa gótica de Edgar Allan Poe surpreende do início ao fim: é envolvente, instigante e muitas vezes, até perturbadora! Poe sempre gostou de utilizar diversas referências literárias para enriquecer seus contos, o que acaba dando um efeito mais abrangente à narrativa. A intertextualidade do autor acrescenta valores que perpassam desde o latim, inglês, francês até as antigas obras clássicas. Cada narrativa apresenta um conjuntos de características marcantes que imergem o leitor em um mundo repleto de enigmas e mistérios.

Se alguém ainda acha que Poe apenas usava temáticas mórbidas e maléficas de maneira estritamente gratuita, é porque não entendeu a fundo as minúcias de sua obra. O mal discorrido pelo autor não é pintado sob um viés de glamour e nem muito menos é tido como uma coisa a ser admirada. Além de explorar as várias facetas da maldade, Poe também envereda em questões sobrenaturais e nos complexos arcanos da mente humana.

Sobre essa edição da Tordesilhas, a mesma poderia ter sido melhor ainda se trouxesse todos os contos do autor reunidos apenas neste volume (o que não seria dificuldade, uma vez que já existem edições completas assim no exterior). A tradução de Cássio de Arantes Leite é uma das melhores já feitas aqui no Brasil, isso sem falar nas ilustrações de Harry Clarke, que dão um toque especial para algumas cenas importantes dos contos.

Destaques:

O Gato Preto
O Poço e o Pêndulo
A queda da casa Usher
A Máscara da Morte Vermelha
Os Assassinatos da Rua Morgue

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05/11/2021

Publicado em 5.11.21 por

Realidade mutante

A narrativa de Schultz é repleta de descrições etéreas que fazem a realidade "saltar" aos nossos olhos. É como se o autor dissecasse o objeto e a ideia ao ponto de vermos nas "entranhas" a essência daquilo que está sendo observado em suas memórias. É algo transcendente e ao mesmo tempo surreal, onde cores e sensações tem sempre algo novo a revelar. Como uma imagem da existência "estendida por vários trajetos ramificados" assim é a visão de Bruno Schultz quanto ao mundo que nos rodeia. A atmosfera onírica do conto Sanatório sob o Signo da Clepsidra me deixou perplexo e se tornou um dos meus favoritos do Realismo Fantástico.


Destaques:

Lojas de canela

A rua dos Crocodilos

Sanatório sob o signo da clepsidra

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03/11/2021

Publicado em 3.11.21 por

Reencontro

Ao som de uma descontraída balada, ele dançava alegremente tendo apenas o seu gato de estimação como espectador. Lá fora a chuva se unia àquele momento ímpar de singularidade, onde nada mais parecia lhe preocupar. Os segundos se esvaíam como gotas de uma torneira semiaberta, transcorrendo lentamente numa sucessão de infindáveis caídas. Seu ser estava em paz. Ele havia se encontrado novamente.

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01/11/2021

Publicado em 1.11.21 por

Um alerta bem dado

O clima penoso e melancólico de Pawana é capaz de deixar o leitor com um "nó na garganta". É uma leitura inquietante, mas creio que essa foi a intenção do autor a fim de transmitir sua mensagem de alerta sobre o quanto a crueldade humana contra a natureza pode ser nociva. A narrativa aborda a terrível caça às baleias no século XIX e foi inclusive inspirada na história real de um navegador da época que veio a se arrepender depois de ter participado de tamanho massacre. No final, a indagação "como alguém pode matar o que ama?" fica martelando na cabeça, nos deixando uma contundente reflexão. Esse é o primeiro livro de J.M.G. Le Clezio que leio, e de cara, já gostei do autor. Excelente prosa em uma abordagem objetiva a respeito de um assunto tão imprescindível como a preservação do meio ambiente.

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