25/01/2025

Publicado em 25.1.25 por

Colecionismo: nos limites do bom senso

Muitas pessoas colecionam livros e CDs como uma forma prática de preservar a memória cultural ou simplesmente por mera nostalgia. E isso não é por menos, uma vez que vários desses itens carregam um valor histórico e emocional inestimável, no entanto, o prazer da busca e a vontade de adquirir podem facilmente se transformar em uma obsessão desenfreada. É justamente nesse ponto que o desejo de ter ultrapassa o valor intrínseco do produto, transformando o colecionismo em um fardo ao invés de uma atividade saudável. Essa linha tênue entre paixão e compulsão é algo que conheço bem, pois também já cheguei a experimentar momentos assim, ainda que não tenha perdido o controle da situação

Desde criança, eu sempre gostei de colecionar itens específicos, indo desde figurinhas até latas de refrigerante. Esse hobby continuou na adolescência com os CDs e se intensificou na vida adulta com a minha biblioteca particular. Passei anos correndo atrás de exemplares raros ou que estivessem dentro da minha área de interesse, claro que não apenas no intuito de "tê-los", mas principalmente, para apreciar todos os benefícios que tais artigos poderiam me oferecer.

No caso dos CDs, o valor sentimental que um álbum tem pra mim é o fator primordial para adquiri-lo. Quanto aos livros, tudo sempre girou em torno da minha curiosidade, seja no tocante a obras clássicas ou não. Minhas aquisições são guiadas por esse critério e não gosto de forçar a barra para comprar algo só porque está na moda.

Apesar de vários riscos que assumi no decorrer dos anos, nunca me endividei por conta disso, mas houve alguns casos em que quase exagerei na dose e tive que estabelecer limites claros para os meus gastos, senão, acabaria por desequilibrar minhas finanças, além de me tornar um mero acumulador.

Hoje, compreendo que é necessário manter o colecionismo dentro de limites saudáveis, com muita autoconsciência e moderação. Colecionar é maravilhoso, mas é necessário que essa paixão esteja alinhada com um propósito claro e realista, evitando que o desejo de possuir se sobreponha ao prazer genuíno de explorar e desfrutar das experiências que cada item proporciona.

Leia mais

12/01/2025

Publicado em 12.1.25 por

Lembranças da península

Quando os pingos d'água bateram em meu rosto naquela fria manhã de inverno, abri os olhos e lembrei que ainda estava deitado próximo à popa do barco em que viajávamos. Tinha dormido bastante e perdido a noção do tempo. Meu pai estava ainda resoluto em sua posição de sentinela, sempre olhando adiante e alerta. Ele havia sido chamado para fazer um breve "bico" de eletricista e nossa jornada tinha como destino a Praia do Caburé, local muito frequentado por pescadores, mas que já começava a receber viajantes de fora do Estado devido à forte tendência turística. Apesar do propósito dessa viagem não ser o lazer, aproveitei para me divertir em mais uma aventura, prestando também atenção aos mínimos detalhes da natureza à nossa volta.

Nossa chegada foi bem antes do meio-dia e quando saltei em terra firme, me senti como um bucaneiro veterano que sondava novas paisagens de uma ilha deserta. O cheiro da maresia era inebriante e trazia uma sensação única de desbravamento, enquanto cada passo dado naquela areia fofa e úmida perpetuava o ar de novidade que me invadia. Ali eu abraçava a vida, mesmo sem saber. Quis correr o máximo que podia em direção à pousada mais próxima, como se toda aquela velocidade pudesse aumentar a intensidade da alegria que era estar naquele recinto.

Ao avistar o largo horizonte retilíneo com o barulho das ondas ao longe, percebi que ainda estava bem distante do mar. A propósito, naquela época, a península do Caburé era muito mais ampla, o que proporcionava inúmeras aventuras em toda sua extensão. Percorrer aquelas imediações era mais que um ato de liberdade, era deixar a vida fluir a plenos pulmões, voando sem ter asas e nem pressa de chegar.

Me entreguei facilmente àquela visão, desprendido de quaisquer preocupações ou infortúnios, pois a revigorante brisa marítima me acalmava levemente. O tenro mar de meu coração correspondia à porção do Atlântico diante de mim: o infinito das águas se encontrando com a imaginação fértil de menino, como se ambos compartilhassem mistérios antigos e eternos. Um mergulho sem precedentes surgia a partir dessa simbiose, revelando profundo enlace com a ondulação das ondas, as quais pareciam carregar fragmentos de histórias não contadas e recordações distantes.

Foi então que papai me despertara daquela epifania, com seu jeito apressado e enérgico de falar: "Junin - disse ele - hora de ir. Depois a gente volta pra tomar um banho". Acordei dos meus devaneios e regressei à vereda que cortava caminho à pousada. Certamente, o mar me esperaria a tempo de mostrar mais de suas belezas naquela inesquecível manhã de domingo.

Leia mais