30/06/2022

Publicado em 30.6.22 por

Descobrindo as riquezas da literatura húngara

Depois de ler duas obras de Ferenc Molnár, me interessei pela literatura húngara e vi nessa pequena antologia uma boa oportunidade de conhecer outros autores da mesma nacionalidade. A seleção dos contos feita por Paulo Schiller nessa edição da Hedra é bem equilibrada, apresentando uma amostra do estilo de cada escritor em narrativas que se passam num período interessante da história da Hungria. 

Dezsö Kosztolányi e Frigyes Karinthy narram histórias com um saudosismo delicioso e ao mesmo tempo agridoce, sempre se reportando a recordações e experiências do passado. A simplicidade permeia quase todos os seus contos, mas não se engane: aquilo que aparenta ser óbvio na primeira leitura esconde pertinentes reflexões numa segunda camada. Já nas narrativas de cunho mais violento e sádico de Géza Csáth nossa perspectiva pode enveredar através de interpelações mais densas e sombrias que revelam o caráter nefasto e decadente do ser humano. 

O último autor da antologia, Gyula Krúdy, foi o meu favorito. A destreza de sua escrita é excepcional e cria um ambiente de afinidade tão grande com o leitor que não há como escapar de sua prosa. Somente em dois contos deu pra perceber todo potencial de Krúdy e ver que ele merece mais traduções de suas obras por aqui. Enfim, esta foi uma leitura inesperada que me apanhou de surpresa e me mostrou facetas únicas de um país que até então eu desconhecia.

Destaques:

Os Velhos
Professor, por favor
O último charuto no Arabs Szürke

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26/06/2022

Publicado em 26.6.22 por

Entre conflitos e bonança

Magistral. Esse é o termo que posso usar pra definir essa grandiosa obra de Tolstói. Já fazia uns anos que eu postergava a leitura deste clássico com receio do tamanho dele, achando que seria um livro moroso e denso demais pra mim. Engano meu. Logo após o início do primeiro tomo, fui logo conquistado pelo enredo e seus personagens, os quais ainda que em meio a dezenas de situações diferentes, estavam entrelaçados através do mesmo fio condutor.

Todos os acontecimentos históricos usados por Tolstói enriquecem muito a trama e trazem um ar de verossimilhança incrível para a obra. Há também vários ganchos que favorecem o desenrolar dos capítulos e a maneira como o autor narra tudo é bastante fluida, apesar dele ser um tanto prolixo em certos parágrafos.

Esse calhamaço é um retrato de sua época e reflete muito bem o espírito russo diante do confronto com o exército francês. Achei interessante o ponto de vista de Tolstói a respeito da Campanha de 1812. Geralmente, sempre vejo historiadores enaltecendo a "genialidade" e "transcendência" de Napoleão, mas aqui, temos uma perspectiva mais humana que revela as falhas e arrogância do dito imperador.

Gostei também do desenvolvimento da maioria dos personagens, principalmente de Pierre, isso sem falar das oportunas "coincidências" que ocorrem durante vários momentos cruciais da história. Toda superficialidade da pomposa aristocracia russa em contraste com os acontecimentos da guerra e a forma como cada um lida com seus próprios desafios é algo notavelmente bem descrito e conduzido.

Apesar de tudo, tenho uma ressalva quanto ao final do romance, pois senti falta de algum parágrafo que culminasse de modo satisfatório toda aquela longa jornada. A narrativa simplesmente encerra em meio às trivialidades do cotidiano das famílias Rostóv e Bezukhóv e nada mais é dito além das teorias históricas de Tolstói nas últimas páginas do epílogo (única parte que achei maçante). Claro que isso não desmerece o conjunto da obra, mas fiquei com aquela sensação de que faltou algo no desfecho. No demais, essa foi uma leitura amplamente proveitosa que agregou em muito à minha vida de leitor. Liev Tolstói é um dos grandes autores da literatura universal e, de fato, não há como negar isso.

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24/06/2022

Publicado em 24.6.22 por

Recomendações de Filmes #1


Nessa postagem, irei dar algumas dicas de adaptações cinematográficas baseadas em alguns dos livros que já li. Essas indicações não se atêm a quesitos de "fidelidade máxima" da adaptação em relação à obra original, mas apenas à qualidade e bom senso da produção.

          O Décimo Homem (The Tenth Man, 1988) 

Sinopse: Jean Louis Chavel (Anthony Hopkins) é um advogado francês capturado pelos nazistas e condenado à morte. Porém existe um homem humilde que se dispõe a ocupar seu lugar à frente do pelotão de fuzilamento assumindo sua identidade em troca de dinheiro, para que sua mãe e irmã possam viver dignamente. O advogado, agora, deverá enfrentar a sua consciência e a família de quem morreu em seu lugar.

Os Duelistas (The Duellists, 1977) 


Sinopse: Durante as guerras napoleônicas, um oficial insulta um companheiro do exército francês e os dois tornam-se inimigos por toda a vida. Nos próximos quinze anos, os caminhos de Gabriel Feraud (Harvey Keitel) e Armand d'Hubert (Keith Carradine) se encontram diversas vezes, fazendo com que eles retomem a disputa em nome da honra e da soberania. Após a derrota de Napoleão, os oficiais se encontram para o último, e definitivo, duelo.

As Aventuras de Huck Finn (The Adventures of Huck Finn, 1993)       

Sinopse: O corajoso menino Huck Finn (Elijah Wood) finge a sua própria morte para escapar de seu pai, que está atrás da herança que sua mãe lhe havia deixado. Finn encontra o amigo Jim (Courtney B. Vance), um escravo fugitivo. Juntos, eles embarcam numa jornada ao longo do rio Mississipi em rumo à liberdade, vivendo muitas peripécias e aventuras.

O Deserto dos Tártaros (Il Deserto dei Tartari, 1976) 

Sinopse: Na sua primeira missão, o tenente Drogo (Jacques Perrin) é enviado para uma fortaleza, isolada na fronteira de um deserto, onde precisa evitar a possível entrada dos Tártaros. Alguns oficiais aguardam ansiosamente o ataque, outros não acreditam na possibilidade do mesmo, mas todos sacrificam suas vidas por um ideal distante e quase improvável.

Crime e Castigo (Преступление и наказание, 1970) 

 

Sinopse: Raskolnikov (Georgi Taratorkin) é um ex-estudante de direito que comete dois assassinatos, cujas razões não são claras. Ele é chamado na polícia para depor na investigação, por conta de ser um cliente da vítima, e é tido como principal suspeito. Enquanto isso, sua mãe e irmã chegam na cidade, causando alvoroço. Ele conhece um homem bêbado que acaba sendo morto em um acidente de trânsito, e se apaixona pela filha prostituta do falecido, Sonia (Tatyana Bedova). Ela propõe fugir para a Sibéria junto com ele mas, será que ele aceitará? 

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20/06/2022

Publicado em 20.6.22 por

Em meio a mistérios e especulações científicas


Geralmente, não aprecio muito antologias avulsas de contos, mas esta, em especial, me chamou a atenção principalmente por apresentar uma temática que é das minhas favoritas: a ficção científica clássica. Tive uma leitura muito satisfatória com este volume e faço questão de tecer um breve comentário sobre cada uma das narrativas nele presentes.

"A Estrela" é um conto objetivo e sem grandes pretensões. O caos apocalíptico aqui narrado é interessante de se acompanhar, ainda que seja meramente especulativo.

"Armageddon: O Sonho" possui uma premissa genial ao transpor os limites entre sonho e realidade, entretanto é uma pena que todo esse potencial tenha sido pouco explorado. Diferente de Jules Verne, Wells parece querer fugir de detalhes mais minuciosos sobre certos elementos-chave da história, deixando várias lacunas no enredo. Se o autor tivesse escrito uma versão estendida desse conto, certamente teria ficado ainda melhor.

"O Eterno Adão" é uma das pouquíssimas obras de Verne que trata de um futuro hipotético. Nela, temos uma ótima reflexão a respeito da destruição e recomeço da humanidade em meio a busca pelo conhecimento das gerações passadas.

"O Templo" apresenta um aspecto de "terror místico" que evoca o mito ancestral de Atlântida. Imaginei que esta seria uma história mais claustrofóbica por se passar dentro de um submarino, porém, o protagonista se mostra bastante racional e centrado mesmo diante da loucura de sua tripulação. Lovecraft conseguiu criar aí um bom clima de suspense apesar da rápida descrição dos acontecimentos narrados.

O conto "Um Outro Mundo", que fecha a coletânea com chave de ouro, trata de um tema inovador pra época em que foi escrito, explorando o conceito de um mundo invisível aos olhos humanos, mas perceptível apenas na visão de um jovem "mutante" com qualidades bastante peculiares. Até essa leitura, não conhecia nada do autor J.-H. Rosny aîné e confesso que me surpreendi com sua prosa.

Enfim, recomendo esse livro para os admiradores de ficção científica e a quem deseja se aventurar nas curiosidades desse gênero.

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16/06/2022

Publicado em 16.6.22 por

Fragmentos poéticos da vida

Nessa seleção de poemas, Socorro Costa transforma breves percepções do cotidiano em recortes finos da realidade regados à nostalgia e boas recordações. Me identifiquei prontamente com tais lembranças, não só por ter vivido na mesma região da autora, como também por ser sensível a esse tipo de texto. 

Me alegro muito em ver uma conterrânea pintar os retratos de nossa terra em versos que transmitem tão bem o contentamento e a simplicidade da vida. É justamente nessas situações corriqueiras do dia a dia que se escondem os mais puros e inesquecíveis vislumbres da existência.

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12/06/2022

Publicado em 12.6.22 por

Ambívios da existência

A bifurcação trazia uma imensa dúvida: qual caminho seguir? Sem conhecer bem o lugar onde estava, ele se viu encurralado na incerteza do destino. Um passo à frente poderia ser decisivo nessa escolha. Percebeu então que, na vida, suas opções não eram diferentes. Observou que tudo ao seu redor exigia uma resposta definitiva quanto ao seu rumo, e por isso, não podia mais esperar. Tomou logo a direção que sabia ser a mais viável mediante as pistas apresentadas. Seguiu adiante e não olhou mais para trás.

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08/06/2022

Publicado em 8.6.22 por

Entre o banal e o fantasioso


Antes desse livro, a única coisa que eu havia lido de Julio Cortázar tinha sido o conto "Casa tomada", que foi uma excelente porta de entrada para sua obra. Em "As Armas Secretas", novamente me surpreendi com a prosa despojada do autor. Seus contos geralmente partem de premissas aparentemente banais para depois tomarem proporções muito mais complexas ou até surreais. O clima de incerteza sempre prevalece entre os personagens e não há vitoriosos no final. Cada narrativa traz seu toque próprio, sem repetir temas ou apelar para clichês. No demais, ler Cortázar foi uma ótima experiência e espero conhecer outras obras dele.

Destaques:

Cartas de Mamãe
Os Bons Serviços
O Perseguidor

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04/06/2022

Publicado em 4.6.22 por

Marcas de uma desilusão


Longe de transformar a primeira experiência romântica de um homem num mar de rosas, Turguêniev nos mostra o quanto dói amar sem ser correspondido. É como uma navalha afiada que dilacera aos poucos o coração e causa profundas marcas na alma sofrida e apaixonada. Com toda essa aflição, o resultado não deixaria de ser um misto de amargura e melancolia, provando simplesmente que a paixão pode ser altamente impiedosa quando não concretizada.

Enfim, é curioso notar que a história narrada pelo personagem Vladimir Petrovich pode facilmente ter sido inspirada em lembranças do próprio autor, já que há traços autobiográficos nessa novela.

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