Confesso que li "Memórias do Subsolo" com certa dificuldade, não apenas devido a escrita meio que "truncada" de Dostoiévski, mas também pela temática da obra. O livro é dividido em duas partes distintas e possui um tom confessional narrado por um personagem nem um pouco simpático ("O homem do subsolo"), o qual é uma pessoa amargurada com a sociedade e que se autodeclara como alguém de índole detestável. No decorrer de seu monólogo, ele vai dando diversas alfinetadas e destrincha uma série de questões a respeito da natureza humana.
Vale lembrar que o subsolo nesta obra seria tanto literal quanto simbólico, uma vez que o narrador mora no subterrâneo e seu discurso, plenamente subjetivo, se aprofunda também no âmago da alma. No tocante a isso, Dostoiévski tem uma capacidade ímpar de examinar a psiquê humana como se a estivesse expondo através de uma lupa e assim ele vai fundo até cutucar a ferida onde exatamente mais dói.
Por muitas vezes o protagonista me irritou, mas depois fui me acostumando com ele e analisando pausadamente cada uma de suas objeções. Por mais que não concordemos com boa parte daquilo que o mesmo fala, somos levados a observar as coisas sob a perspectiva dele e até concordar em alguns pontos.
Essa é uma obra com forte teor filosófico e existencialista, norteada por questionamentos pertinentes e um personagem que, em toda sua complexidade, facilmente representa as tensões e ansiedades do homem moderno.
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