Queria muito ter comprado aquela camisa-azul marinho, não muito diferente das outras que eu já tinha em casa. Apesar de não se diferenciar do restante do meu guarda-roupas (repleto também de camisas azuis), achei por um momento que seria uma boa aquisição, uma vez que a etiqueta interna do produto trazia a atraente mensagem de “edição limitada” e encontrar outro modelo daquele seria bem difícil.
Refleti então que isso poderia implicar no meu possível desejo de comprar mais uma roupa somente pelo “ar de novidade”. Se bem que o fim do ano seria o apelo mais razoável para se renovar o vestuário, afinal, todo mundo gosta de usar trajes novos no Natal e no réveillon. Outra questão seria a proximidade do meu aniversário, mas se fosse por isso, valeria a pena comprar um presente para mim mesmo ou eu deveria ceder à ilusão de que outra pessoa pudesse me dar algo parecido? De qualquer maneira, não pude deixar de perceber que a influência meramente comercial e consumista quase sempre é a mais gritante acima de tantos outros motivos.
Camisa cara, mas bonita, um pouco grande no tamanho, mas poderia ser ajustada na costureira depois (coisa que minha avó fazia tão bem). Fiquei estacionado no dilema concernente ao preço: poderia eu pagá-la? Meu contrato de emprego tinha chegado ao fim naquela semana e as contas pendentes já protestavam nos meus lembretes diários, cada uma, apresentando seus incômodos valores e possíveis juros.
Nesse instante, um desconforto me invadiu, deixando-me indiferente ali na entrada daquela loja. Olhando para a rua, pude notar então as pessoas indo e vindo, com sacolas e embrulhos nas mãos, como se fossem um exército de formigas levando suas provisões para o inverno através de tortuosas estradas. Será que algum daqueles indivíduos também passara pela mesma situação que eu estava enfrentando ou será que todos compraram sem nenhuma hesitação? Talvez sim, talvez não. Mesmo assim, a vida deles era outra, quiçá com as mesmas razões, mas motivos e impulsos particularmente distintos dos meus, ainda que pudessem ser aparentemente similares.
Meu olhar desviou-se da multidão e voltei-me novamente para a camisa outrora almejada. Já não me sentia mais tão atraído por ela, mas decidi entrar em outra sessão da loja a fim de pesquisar roupas mais baratas. Olhei... Olhei... mas nada enchera meus olhos da mesma forma como a camisa de “edição limitada”. Voltei então decidido a me arriscar em comprá-la, mas quando cheguei ao manequim que vestia a mesma, notei que ela já não estava mais lá. Virei o rosto de lado e vi que outro cliente a estava levando. Bem, pelo menos, eu havia tentado.


