Quando os pingos d'água bateram em meu rosto naquela fria manhã de inverno, abri os olhos e lembrei que ainda estava deitado próximo à popa do barco em que viajávamos. Tinha dormido bastante e perdido a noção do tempo. Meu pai estava ainda resoluto em sua posição de sentinela, sempre olhando adiante e alerta. Ele havia sido chamado para fazer um breve "bico" de eletricista e nossa jornada tinha como destino a Praia do Caburé, local muito frequentado por pescadores, mas que já começava a receber viajantes de fora do Estado devido à forte tendência turística. Apesar do propósito dessa viagem não ser o lazer, aproveitei para me divertir em mais uma aventura, prestando também atenção aos mínimos detalhes da natureza à nossa volta.
Nossa chegada foi bem antes do meio-dia e quando saltei em terra firme, me senti como um bucaneiro veterano que sondava novas paisagens de uma ilha deserta. O cheiro da maresia era inebriante e trazia uma sensação única de desbravamento, enquanto cada passo dado naquela areia fofa e úmida perpetuava o ar de novidade que me invadia. Ali eu abraçava a vida, mesmo sem saber. Quis correr o máximo que podia em direção à pousada mais próxima, como se toda aquela velocidade pudesse aumentar a intensidade da alegria que era estar naquele recinto.
Ao avistar o largo horizonte retilíneo com o barulho das ondas ao longe, percebi que ainda estava bem distante do mar. A propósito, naquela época, a península do Caburé era muito mais ampla, o que proporcionava inúmeras aventuras em toda sua extensão. Percorrer aquelas imediações era mais que um ato de liberdade, era deixar a vida fluir a plenos pulmões, voando sem ter asas e nem pressa de chegar.
Me entreguei facilmente àquela visão, desprendido de quaisquer preocupações ou infortúnios, pois a revigorante brisa marítima me acalmava levemente. O tenro mar de meu coração correspondia à porção do Atlântico diante de mim: o infinito das águas se encontrando com a imaginação fértil de menino, como se ambos compartilhassem mistérios antigos e eternos. Um mergulho sem precedentes surgia a partir dessa simbiose, revelando profundo enlace com a ondulação das ondas, as quais pareciam carregar fragmentos de histórias não contadas e recordações distantes.
Foi então que papai me despertara daquela epifania, com seu jeito apressado e enérgico de falar: "Junin - disse ele - hora de ir. Depois a gente volta pra tomar um banho". Acordei dos meus devaneios e regressei à vereda que cortava caminho à pousada. Certamente, o mar me esperaria a tempo de mostrar mais de suas belezas naquela inesquecível manhã de domingo.


