07/04/2024

Publicado em 7.4.24 por

Existe autoria pura?

Foto: fotografierende/Unsplash

Estive pensando certo dia que quase tudo que a cultura televisiva faz hoje é fruto da influência da literatura dos séculos passados. Desde o famoso "caldeirão das bruxas fazendo poções" (cena de Macbeth, de Shakespeare) em desenhos animados até os episódios intrigantes de "Black Mirror" (muito baseados nos contos de Asimov, Bradbury, Silverberg & Cia), vê-se um enorme leque de referências que quase sempre passa despercebido aos telespectadores. Eu poderia enumerar aqui uma lista infindável dessas referências, mas minha intenção no momento é apenas reafirmar o fato de que os livros ainda exercem bastante influência na indústria cinematográfica atual, influência essa que molda a forma como vemos personagens, histórias e cenários que se tornaram ícones da cultura popular.

Sempre costumo dizer aos meus amigos que não existe ideia "100% original" e que quando alguém "cria" qualquer obra, tal pessoa teve que captar inspiração de outros autores, mesmo que alguns conceitos acabem por ser mesclados a fim de se obter um resultado mais distinto. É claro que não estou condenando o fato de se buscar referências pela literatura afora, afinal, ninguém está isento de beber em outras fontes.

A propósito, isso me faz lembrar que Jorge Luis Borges também não acreditava na existência de uma autoria "pura". Para ele, todo texto é construído a partir de um conjunto prévio de influências e referências culturais e históricas. A criação literária é então um processo de intertextualidade, em que o escritor dialoga com obras e tradições anteriores, e que a originalidade está mais relacionada com a maneira como essas influências são combinadas e reconfiguradas do que com uma suposta "genialidade" do autor. Posso reiterar que tal quadro não se aplica somente aos livros, como também (mais ainda) às produções cinematográficas.

É uma pena que boa parte do público não seja ciente disso (e quem dera se todos fossem). Captar referências literárias em qualquer obra é bem mais do que fazer parte de um seleto grupo de "entendidos", é antes mergulhar em um vasto universo repleto de ideias entrelaçadas. Reconhecer isso não apenas enriquece nossa experiência como espectador, mas também destaca a riqueza cultural que permeia tanto a literatura quanto o cinema. 

É justamente quando compreendemos que a criação artística é essa espécie de "colagem de inspirações" é que podemos apreciar ainda mais a habilidade dos criadores em sintetizar diferentes correntes literárias e transformá-las em algo único. A intertextualidade, como Borges argumentava, acaba sendo um diálogo contínuo entre o passado e o presente, e que molda constantemente nossa compreensão do mundo através de diversas perspectivas (lembrei agora do "Cone da Memória" de Bergson, conceito que vi pela primeira vez num vídeo da Tatiana Feltrin a respeito do conto As ruínas circulares do Borges).

Enfim, independentemente do que poderá acontecer nos anos que virão, a literatura continuará firme e forte, inspirando a criação de novas formas de entretenimento e ajudando a traçar os rumos da cultura pop contemporânea, pois a fusão de diferentes conceitos e a reinvenção de temas são elementos essenciais capazes de dar vida a novas narrativas.