O tempo e a efemeridade da vida são temas caros que nem sempre são explorados de forma adequada por todo escritor, mas em se tratando da habilidade de Thomas Mann, essas questões ganham uma profundidade excepcional, ainda que bem densas em sua exposição.
"A Montanha Mágica" segue a jornada do jovem Hans Castorp, que visita seu primo adoentado em um sanatório nos Alpes suíços. Inicialmente, sua estadia planejada para três semanas se estende por muito mais tempo devido à uma série de situações que irão surgir naquele lugar, onde o tempo parece suspenso e as pessoas agem de maneira bastante peculiar e até excêntrica.
A partir daí, acompanhamos gradualmente a transformação de Hans Castorp durante todo período em que ele passa internado. A propósito, o sanatório não é apenas um local de tratamento médico, mas também um espaço onde ideias conflitantes sobre a vida são debatidas entre os pacientes, refletindo as tensões e pensamentos da Europa antes da Primeira Grande Guerra.
A meticulosidade de Mann na caracterização dos personagens contribui para a riqueza da trama uma vez que há inúmeras representações sociais através dessas figuras. O autor também soube utilizar a ambientação isolada da montanha para criar uma atmosfera peculiar e reflexiva que fosse propícia aos debates de Hans com os outros enfermos dentro de um microcosmo onde a doença é o fator motriz que rege todas as convenções.
Apesar de ter gostado muito da escrita de Thomas Mann, achei alguns aspectos da história bem cansativos, ainda que isso não tenha me tirado o interesse pela leitura, a qual tive que fazer mais devagar em algumas passagens devido as longas frases e parágrafos extensos. Falando nisso, a falta de ação direta muitas vezes dá espaço para diálogos filosóficos e divagações, abordagem essa que exige uma paciência extra, mas que oferece uma oportuna análise sobre os mais diversos temas universais.
Achei ainda os últimos capítulos mais superficiais se comparados com a profundidade apresentada nas demais partes do romance. As motivações de alguns personagens no final ficaram sem explicações precisas e a impressão era de que o autor correu pra terminar a história. Fiquei me indagando: o que a longa experiência de Hans no sanatório proporcionou a ele depois na Guerra? Tudo se interrompe bruscamente e o jovem parte sem nenhuma análise de sua decisão (lembremos de que ele não estava em perfeita saúde). Por mais que haja pretextos subentendidos nisso tudo, o leitor fica desejoso de uma melhor explanação.
Finalmente, "descendo a Montanha", só posso dizer que essa obra me trouxe impressões ambíguas, oscilando entre momentos ímpares e outros exaustivos. Ainda assim, não há como negar o talento de Thomas Mann numa obra tão rica e multifacetada como essa, que certamente, faz jus à sua reputação.
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