Desvendar as nuances de uma história de maneira profundamente sensível é uma proeza que nem todo escritor consegue fazer com eficácia. No entanto, Josué Montello se destaca nesse quesito ao construir personagens e cenários que podem facilmente se relacionar com a nossa própria realidade e conflitos pessoais sem abrir mão de uma prosa limpa e concisa.
Em "Cais da Sagração" o autor nos conduz por uma trama marcada por sutilezas e introspecções que passeiam entre passado e presente sem se perder em excessos ou digressões desnecessárias. Como Montello era dono de uma escrita refinada e precisa, tal qualidade por si só consegue cativar o leitor sem deixar que o ritmo da narrativa se perca no meio do caminho.
A história gira em torno de um barqueiro chamado Mestre Severino que, após uma vida repleta de lutas e decepções, chega à velhice com uma missão autoimposta de treinar seu neto Pedro para ocupar seu lugar no leme do "Bonança". Ao mesmo tempo, Severino é um homem simples, porém rude, que prefere arcar com as consequências de suas atitudes do que assumir um erro. Ao longo do livro isso se torna claro na medida em que os capítulos vão revelando diversos acontecimentos da vida do barqueiro, que entre acertos e tropeços, segue sustentado por um orgulho que o isola, mas ao mesmo tempo, o define.
Além de mestre Severino, também achei os demais personagens do romance profundamente verossímeis: Lourença, Vanju, Pedro, Padre Dourado e Davi exalam singularidades incrivelmente humanas que enriquecem o enredo da forma mais autêntica possível. Montello desenha muito bem cada um deles, os moldando como um conjunto complexo de figuras que atravessam a narrativa não como meros coadjuvantes, mas como ecos fundamentais da paisagem emocional que envolve o protagonista.
Apesar de toda riqueza da obra, não entendo o motivo de "Cais da Sagração" não ter o devido reconhecimento no rol dos clássicos brasileiros. Josué Montello é um autor que merece ser relido, debatido e respeitado, não como uma nota de rodapé na história da literatura nacional, mas como um de seus maiores escritores.


